A PRESENÇA DE FRANCISCO XAVIER DA ROCHA - CAPÍTULO V

  Quem por primeiro esboçou a história de Apiaí, atrelando-a a um só tempo à pessoa de Francisco Xavier da Rocha, dando-o como seu fundador, versão que passou a ser aceita e divulgada, foi Manoel Eufrazio de Azevedo Marques, servidor público da capital paulista, que no ano de 1879 fez publicar a obra “Apontamentos” - históricos, geográficos, biográficos, estatísticos da província de São Paulo”, seguidos da cronologia dos acontecimentos mais notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de 1876, reeditada em 1952.

Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque


Eis na íntegra seu pronunciamento sobre Apiaí, inserido às fls. 85 e 86 do trabalho reeditado:
“APIAHY - (Apiaí) - Santo Antonio de. Povoação situada a OSO da capital, à margem direita do ribeirão Palmital e na esquerda do ribeirão Água Grande. Sobre sua fundação eis o que pudemos obter. Foi seu primeiro fundador Francisco Xavier da Rocha, que havia sido capitão-mor num dos arraiais de Minas Gerais, de onde veio, segundo consta, com 150 escravos entrando pelo lado deParanapanema. O primeiro sítio onde fez residência foi no lugar chamado Capoeiras, distante duas léguas da povoação; daí alongou-se para os lados onde foi edificada a primeira povoação que chamou-se Santo Antonio das Minas. Em 1735, segundo o primeiro assentamento de batismo da matriz, já a povoação se denominava Freguesia de Santo Antonio das Minas. A edificação da Matriz é tradição que fora pelo dito Xavier e outros, mas que, por desinteligências que tiveram, desgostou-se Xavier e veio estabelecer-se no lugar chamado Rocinha, onde começou um novo arraial, que é hoje a vila de Apiaí. Neste lugar permaneceu ele por muito tempo minerando no ribeirão Palmital, que nasce nas fraldas do Morro do Ouro, para onde afluíram os moradores da então vila, atraídos pela riqueza das minas, e onde formaram outra vila com igreja matriz. Esgotado, porém, ouro que se podia facilmente tirar, começaram os mineiros a fazer grandes escavações e revolvimento de terras, com o que foram demolindo casas e edifícios, de modo que o povo voltou a estabelecer-se outra vez na Rocinha”.

Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque

Convém tecer um retrospecto sobre a presença de Francisco Xavier da Rocha em Apiaí.
Faleceu entre 20 de Dezembro de 1778 e Dezembro de 1779 com a idade de 86 anos. Há certeza nesse sentido se bem que não se tenha conseguido encontrar o assento do seu óbito. A relação dos habitantes de Apiaí, censo nominando um por um todos os moradores, desde crianças até idosos e escravos, relativa ao exercício de 1778 está por ele legívelmente subscrita, e a relação correspondente a 1779 está assinada pelo Capitão Antonio Duarte do Valle, em Dezembro daquele ano, “por falecimento do Capitão-Mor Francisco Xavier da Rocha” (sic).
Naquela lista assinada por Xavier da Rocha a 20 de Dezembro de 1778, ele próprio afirma contar com 86 anos de idade. Nasceu, por conseguinte, no curso do ano de 1692. Deixou viúva D. Anna de Oliveira Rosa, falecida antes de 1810, e com ela não teve filhos, conforme se depreende de uma procuração lavrada no tabelionato local a 5 de Julho desse ano, em que sobrinhos do Capitão Mor Francisco Xavier da Rocha, filhos de Anna Xavier da Rocha, constituem advogados para defenderem seus interesses no que diz respeito à herança deixada pelo Capitão. Tal detalhe, aliás importante, é confirmado pelo próprio Xavier, que no censo relativo a 1776 declara-se casado, sem relacionar filhos, o que não deixou de mencionar com relação a todos os habitantes que personificou, casados e com filhos. Xavier foi concunhado do Capitão Thomaz Dias Baptista, casado com Rita de Oliveira Rosa, personagem marcante na história de Santo Antonio das Minas de Apiahy e do arraial de Yporanga, tronco da imensa família que herdou o seu nome, com descendentes que permaneceram em Apiaí, Ribeira, e tantos outros que se multiplicaram por Avaré, Itararé, Sorocaba, Salto de Pirapora, etc. Anna e Rita de Oliveira Rosa eram filhas do português Manoel Rosa Luiz casado com a apiaiana Maria da Assumpção de Oliveira.
Francisco Xavier da Rocha, pela sua boa fama e dignidade de conduta, gozava de grande estima por parte de Dom Luiz Antonio de Souza Botelho, Governador Geral da Capitania de São Paulo, e aquelas qualidades são destacadas pelo próprio governante, na oportunidade em que lhe outorgou as patentes deCapitão-Mor Regente e Capitão da Vila de Apiaí, como se verifica dos ofíciosseguintes (redação da época):
“Ainda que sei que Vmcê já hoje vive retirado e izento dos empregos publicos com tudo, tendo eu noticia de sua capacidade e prestimo, e havendo de nomear Capitam para eSe Destricto consiente que seria dezatender o seu merecimento ir nomear outro para mandar neSe Destricto e preterir a Vmcê. Nestes termos me resolvi a mandar lavrar a Patente que com esta offereço a Vmcê, caso queira servirSe della mandará Vmcê avizo a esta Secretaria para se formarem os aSentos necessarios, e quando vmc ainda com tudo iSo se queira eximir do Serviço, vay a outra para Vmcê mandar entregar, e do que me resolverme de parte. S.Paulo a 7 de Janeiro de 1769//Dom Luiz Antonio de Souza // Snr Francisco Xavier da Rocha //
“Para o Capitam Regente Francisco Xavier da Rocha. Pelo respeito de Vmcê, e boa fama, que por Repetidas vezes recebi de Sua honra, e Capacidade, me resolvi o prover no posto de Capitam Mor Regente dessa Villa por falecimento de Garcia Rodrigues Paes, sem mais demora fiz que Se lhe paSaSe a Patente, que Remeto Com esta, esperando que Vmcê. não Só aceyte, Como que dezempenhe o Conceito que faço da Sua peSoa; porque nem eSe destricto pode estar Sem peSoa que Servira este posto, nem era justo que ahy Se deSe a outrem, que não foSe Vmcê, em quem se descobrem os grandes merecimentos, que delle o fazem digno. Para o que eu lhe prestar fico muito Certo para lhe dar gosto. Proponha-me peSoa para ocupar o posto de Capitam, que Vmcê exercia, e venha a proposta a entregar ao Secretario deste Governo, e Seja Com brevidade, Como tambem a proposta de todos os mais postos, que estiverem vagos. Deos guarde a Vmcê. São Paulo a 2 de Julho de 1771 // Dom Luiz Antonio de Souza // Snr Capitam Mor Regente Francisco Xavier da Rocha //
O nome de Francisco Xavier da Rocha aparece pela primeira vez no cenário histórico de Apiaí, quando do batismo de Antonio, filho legítimo de uma escrava sua. Serviu como padrinho, como se vê do termo lavrado pelo Vigário da Igreja Matriz de Santo Antonio de Apiahy, Padre João Monteiro, fls. 36 do livro de registro de batismos, no dia 2 de Julho de 1736, quando o povoado se localizava na Vila Velha do Pião. Sempre viveu do garimpo e era ou tornou-se pessoa de grandes posses, o que se deduz do número de escravos que tinha: 44 de serviço, 15 sem serventia e 16 menores ( censo de 1776 ).

Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque


“Os escravos representavam grande patrimônio, correspondente cada um a quase um conto de reis, numa época em que uma casa confortável custava dez contos de reis”. ( Aroldo de Azevedo - “Doutor Rodrigues, Barão de Santa Eulalia”,pág. 332/333)
A ratificar essa informação, existem escritos nos anais do tabelionato de Apiaí. As fls. 17 verso e 18 do livro de notas numerado 000, encontra-se lançada uma carta pela qual o Padre Bernardo de Moura Prado concede liberdade a seuescravo Jerônimo, de seis anos, contra o pagamento da importância de rs.96$000.Pela escritura de fls. 74 do mesmo livro, o criolinho Antonio, de 12 anos, foi vendido por José de Moraes Cunha a Alberto de Oliveira Rosa, pela quantia de rs.400$000. Pela carta transcrita as fls. 143 , o escravo José Mico, de 80 anos de idade, conquistou sua liberdade pagando a seu amo o valor de rs.50$000.
No dia 20 de abril de 1872 o imóvel “Gorutuba”, localizado no caminho de Itaóca , com um quarto de légua em quadra (100 alqueires mais ou menos) foi vendido por Crispim de Carvalho a Severino Martins Dias Baptista por rs. 300$000, enquanto que no primeiro de maio que se seguiu, José Joaquim Gomes concedeu liberdade à sua escrava Francisca, de dezoito anos de idade, contra o recebimento de rs. 800$000 !
Existem outras notícias escritas que reforçam a questão da credibilidade, respeito e confiança que Francisco Xavier da Rocha, como Capitão Mor Regente de Apiahy, guardava para consigo, junto ao governo da Província de São Paulo.Recebeu ordens para recrutar homens solteiros para o real serviço (04.08.1.775).Tinha poderes para fiscalizar as minas do “Morro do Ouro”, sobrepondo-se aos juízes e oficiais (vereadores) da Câmara (16.03.1.778). Foi expressamente encarregado de prender o Juiz Municipal João Vieira de Sá, os vereadores Crispim de Pontes Maciel, Joaquim Gonçalves e o Procurador Manoel Ferreira de Melo,que não haviam comparecido à presença do Governador Martim Lopes Lopo de Saldanha, para uma audiência marcada por S. Ex cia. na capital da província(08.05.1.778), ordem essa ratificada pelo ofício de 15.06.1.778.

FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ

 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃOOSWALDO MANCEBO.

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