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A usina de chumbo de Apiaí, projetada e instalada pelo IPT em 1940, foi a primeira a refinar esse metal no Brasil utilizando o carvão natural. Usina Experimental de Chumbo e Prata de Apiaí (Bairro Palmital) – 1942 Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy
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Os primeiros depósitos de minério de chumbo existentes no município de Iporanga foram descobertos no curso do século XIX, mas sua exploração começou por volta de 1923. Os afloramentos mais salientes estavam situados nos imóveis Furnas e Lageado, daquele município.
Os irmãos Oswaldo e Raphael Salles Sampaio foram os pioneiros naquela exploração. De início compraram o imóvel Furnas, organizaram a Sociedade Mineração Furnas Ltda., obtiveram o decreto de pesquisa e lavra do minério junto ao Departamento Nacional de Produção Mineral e começaram a extração.
No Brasil ainda não havia usina para processar o minério até sua metalização. Na jazida de Furnas, despontava como mineral mais importante a galena argentífera, que vem a ser o minério de chumbo com elevado teor de prata. A jazida de Furnas, com tal minério, era e é a única conhecida no Brasil.
Elas foram estudadas, de início, pelo inglês Ernesto Young e mais tarde pelos engenheiros Theodoro Knecht, Glycon de Paiva e Luiz Flores de Moraes Rego.

A Sociedade Mineração Furnas Ltda. iniciou seus trabalhos, por meio de escavações a céu aberto, verdadeiros buracos de tatu. O minério desmontado era trazido do fundo da mina nas costas dos mineiros, à maneira das velhas minas espanholas, ou mais recentemente, à moda da “Serra Pelada”. Trazido o minério para fora das galerias, o que se apresentava mais rico era catado à mão e embalado em sacas de aniagem de 50 quilos. Como a mina de Furnas estivesse isolada no sertão, sem qualquer ligação rodoviária, aquele minério ensacado era levado até Iporanga no lombo de burros, levando cada qual dois sacos em suas bruacas. De Iporanga o minério era levado para Iguape em canoas que dois fragueiros impulsionavam com varejões, e ali era estocado até que a quantidade justificasse o transporte, por barcos já de calado bem maior, até o porto de Santos. Deste porto internacional o minério ensacado seguia via marítima até o porto e cidade de Cartagena, na Espanha, onde era processado e metalizado, inclusive com a separação da prata, em usina da multinacional Sociedade Anônima Penarroya Co.- Relata o engenheiro Othon Henry Leonardos que dentre 1.923 e 1.933 a exportação de Furnas consignada à referida sociedade ascendeu a 5.818 toneladas de minério, com teores entre 66 e 75% de chumbo e 2.000 a 3.500 gramas de prata por tonelada e minério. Os irmãos Sampaio, da Sociedade Mineração Furnas Ltda., recebiam aqui no Brasil, uma porcentagem, em dinheiro, do valor do mineral beneficiado lá no estrangeiro; essa contraprestação denominava-se “royalty”. Evidente que esse sistema era prejudicial não só para o minerador, mas principalmente para o país de origem do minério, que adquiria no exterior a totalidade do chumbo e da prata que o mercado interno consumia. Mas não havia outra alternativa no momento. A inauguração da rodovia ligando Apiaí a Itapetininga, acontecida em 1927, agilizou um pouco aquele dificultoso sistema, pois então as sacas de minério trazidas por tropas até Apiaí, eram levadas até Itapetininga em caminhão; naquela cidade o transporte era feito por via férrea até Santos, seguindo para Cartagena pela maneira primitiva. A carga útil de um caminhão àquele tempo era equivalente a seis toneladas.
O aproveitamento de jazidas de chumbo no Brasil, teve início em Iporanga, como foi explicado. O ano de 1938 apresentou-se auspicioso para aquela empresa mineradora do chumbo de Iporanga, pois iniciara-se a abertura da rodovia que brevemente viria ligar Apiaí a Iporanga, tendo como ponto intermediário justamente a mina de Furnas. Em seguida, o Governador do Estado de São Paulo, Dr . Adhemar Pereira de Barros, pelo Decreto nº 10.528, de 29.9.1939, abria crédito para o custeio da montagem , no bairro Palmital, da USINA EXPERIMENTAL DE CHUMBO E PRATA DE APIAI, especialmente para, como pioneira, processar e metalizar o minério de chumbo brasileiro, vale dizer da mina de Furnas, em Iporanga.
A administração desse empreendimento, com obra iniciada a 16.10.1939, estava a cargo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que ao depois foi transformado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas S\A, sociedade de economia mista, tendo o Estado de São Paulo como sócio majoritário.
Aquela pitoresca e custosa rodovia, iniciada em março de 1938, foi inaugurada em setembro de 1941, e nos seus trabalhos não se usou qualquer tipo de maquinário, leve ou pesado.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Entrementes, a Usina Experimental do Calabouço, iniciada naquele ano de 1939, caminhava a passos largos para sua conclusão, sob a direção do capacitado engenheiro paulista, Dr. Tharcisio de Souza Santos, que se especializara nos Estados Unidos da América do Norte e que pertencia aos quadros do IPT, a sociedade mista paulista empreendedora da importante obra. Em janeiro de
1941 a Usina de Chumbo e Prata de Apiai foi finalmente inaugurada, com a presença de seus engenheiros, seus operários, autoridades locais e do Exmo. Snr. Dr. Adhemar Pereira de Barros, o Governador que havia autorizado a sua construção. Do forno de redução escoou então o primeiro chumbo refinado, do minério que de Furnas vinha agora transportado por caminhão. Foi exposto, com muita festa e euforia o primeiro lingote com a marca indelével “CHUMBO DE APIAÍ, coroando os insistentes e antigos anseios dos mineradores, que haviam sido libertados dos graves problemas que resultavam do sistema da mineração primitiva, que exigia o transporte da galena argentífera para ser beneficiada no longínquo exterior, sem maiores lucros para o minerador e também para a nação. Esse primeiro forno onde se reduzia o minério era de pequena capacidade, onde se testou e viu-se aprovado o sistema preteritamente calculado, estudado e posto
em prática. Com o êxito obtido, o forno foi então ampliado com sucesso, produzindo de início cincoenta lingotes de chumbo, em seis horas de funcionamento diário, aumentado ao depois para cem lingotes num mesmo turno. A prata, o zinco e o estanho, sub-produtos da galena, foram produzidos em bem menor escala, com aproveitamento, entretanto, de todo o seu resíduo contido no minério principal.



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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
A usina de Apiaí, então, já estava refinando ou metalizando o minério de chumbo que vinha, além da mina de Furnas, do Lageado, pertencente á Mineração Lageado Ltda. daqueles mesmo irmãos Raphael e Oswaldo Salles Sampaio, e também da mina de Panelas, situada em Adrianópolis, do vizinho Estado do Paraná, que havia iniciado suas atividades extrativas, no ano de 1940 em escala ainda reduzida. A mina de Panelas pertencia a Sociedade Mineração Plumbum Ltda., da qual era sócio majoritário Adriano Fonseca Seabra, português naturalizado brasileiro.
Tudo funcionava dentro das expectativas e normalmente sob a direção do IPT, mas a contar de 5.11.1942 até março de 1946, em que o Brasil esteve em estado de beligerância com Alemanha, Itália e Japão, a direção da Usina Experimental foi transferida para a “Coordenação da Mobilização Econômica”, órgão afeto ao Comando Geral das Forças Armadas, pela razão de produzir material considerado estratégico. Posteriormente, em 1947, a direção da Usina Experimental retornou para o IPT, vinculado à Secretaria de Governo do Estado, e continuou suas atividades, mas já enfrentando grandes dificuldades, quer com relação à produção quer com relação às despesas elevadas com a manutenção do estabelecimento. A Sociedade Mineração Plumbum Ltda., transformada em Plumbum S\A Indústria Brasileira de Mineração, então multinacional integrada ao grupo francês da Penarroya, já não remetia para a Usina Experimental de Apiaí a boa quantidade de minério de chumbo que produzia, porque havia montado a sua própria usina, com capacidade para processar muito maior quantidade de minério de chumbo além do que extraía de suas jazidas.

Mas assim mesmo o IPT, depois que reassumiu a direção do complexo, estava ampliando suas instalações, confiando num fornecimento mais volumoso das minas exploradas pela Sociedade Mineração Furnas e Mineração Lageado Ltda. sendo que o prédio que se destinaria à refinaria já se encontrava bem adiantado em sua construção, inclusive com os panelões de ferro esperando sua colocação.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Mas no ano de 1951 os investimentos naquela ampliação estavam muito elevados, enquanto as despesas com manutenção dos trinta e cinco operários e do corpo de técnicos encareciam de muito o custo do processamento do minério, cujo preço, assim, não estava em condições de concorrer com o chumbo e a prata postos no mercado pela Plumbum S/A. Questões financeiras já não justificavam a mantença da Usina Experimental do Calabouço. Além do mais esta Usina já havia cumprido seu objetivo que havia sido precisamente o de libertar o minerador nacional do ônus de procurar seu refino ou metalização no exterior.
Desta forma, em 1951, Jânio da Silva Quadros, logo que assumiu o governo do Estado de São Paulo, por meio de um daqueles seus tradicionais bilhetes determinou :
“Feche-se a Usina Experimental de Chumbo e Prata de Apiaí, que pesa muito mais que chumbo no orçamento”.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
A usina, pois, foi desativada e no local em que existia, permaneceram apenas três funcionários, que zelavam de suas construções, maquinários, etc. Destes, entretanto, dois logo em seguida aposentaram-se e o único que ali permaneceu, se bem que diligente, não conseguiu evitar que vândalos e amigos do alheio, dali subtraíssem, às escondidas, a maior parte dos acessórios da usina hidroelétrica montada na cachoeira do rio Palmital, todo o material da linha de transmissão que conduzia energia elétrica até as instalações da Usina Experimental e tantos outros materiais ali existentes. O que restou da pioneira Usina Experimental de Chumbo e Prata de Apiaí, como os prédios, balança, complexo da refinaria e a construção iniciada para a ampliação, atualmente estão sob administração da Prefeitura Municipal de Apiaí, que tem uma ação expropriatória ajuizada, com o objetivo de trazer para si todo o acervo, prometendo instalar no imóvel um Parque ou Horto Florestal, com o posto de monta já iniciado e que está em atividade, ainda que de forma precária. O terreno respectivo,com sete alqueires de área toda fechada com cercas de arame, por sua vez, permanece com sua exuberante mata nativa ainda intacta, e com seus muitos pinheiros em pé, enfeitando e valorizando aquela gleba que merece ser respeitada também pelo que representa para nossa história e nossa memória.


Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque
FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
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Palavras chave: HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS DE APIAÍ - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - FOTOS DAS RUÍNAS DA USINA DE CHUMBO DE APIAÍ - FOTOS DA CIDADE DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA