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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
A ocupação do território brasileiro pelos portugueses partiu de regiões litorâneas, através dos rios, a via de acesso natural mais prática.
A primeira expedição exploradora, narram os historiadores, partiu de Cananéia, alcançando o Ribeira de Iguape, seguindo o seu curso, mas nenhum de seus componentes retornou à origem, para relatar detalhes. Saiu daquela povoação, a mando de Martim Afonso de Souza, no primeiro dia de setembro de 1531, sob a chefia do capitão Pêro Lobo e integravam-na oitenta soldados regulares.
Conta-se que seu objetivo seria encontrar minas no rio Paraguai, e que teria sido dizimada pelos índios carijós na foz do rio Iguaçú. Entretanto, como ainda não havia carta geográfica do interior do continente recém descoberto, os cursos d’água ainda não tinham nome e nem se conheciam os habitantes nativos, tem-se que nenhuma daquelas hipóteses poderá ser aceita como escorreita.
Tanto mais que não restaram sobreviventes da infausta caravana. E como ela estava a cata de riquezas minerais, não poderá restar descartada a versão de que os aventureiros tenham passado por terras hoje pertencentes a Apiaí e imediações, onde pouco mais tarde ricos depósitos de ouro seriam encontrados e explorados.
A respeito da gradual ocupação do Vale do Ribeira no caminhar dos anos que se seguiram naquele século XVI não se catalogaram fatos concretos esclarecedores. Mas é certo que as minas de ouro descobertas desde Iguape até Apiaí se constituíram no motivo de sua colonização.
“Foi no Estado de São Paulo que, em meados do século XVI, se descobriram as primeiras minas de ouro do Brasil. Confirmaram esses achados missivas do bispo Sardinha e do padre Anchieta, datadas respectivamente de 1552 e 1554. As jazidas auríferas são verificadas nas expedições de 1560 e 1562, do provedor Braz Cubas e seu auxiliar Luiz Martins”.
E quando Calógeras com sua autoridade menciona o Estado de São Paulo como sendo o berço da mineração do ouro no Brasil, implicitamente destaca naquele episódio as minas descobertas e exploradas no Vale do Ribeira, principalmente Apiaí, o que tudo ensejou a instalação em Iguape, da primeira casa de fundição do precioso metal, por volta de 1637.
“Ahi, na antiquíssima cidade de Iguape, existiu a primeira Casa da Moeda, isto é, a fundição onde eram fundidas as antigas moedas de ouro, cujo metal precioso era catado ou bateado em todo o Ribeira acima e, levado para esse lugar, a fim de ser transformado em meio circulante”.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Principiamos este modesto trabalho com essas três citações, caminhando à ré no tempo, numa tentativa de identificarmos aquele ou aqueles que por primeiro pisaram as terras que hoje agasalham a cidade de Apiaí, que se denominou “Santo Antonio das Minas de Apiahy”, com as variações de “Apiahú”, “Piahú”, ou simplesmente “Piahi”, conforme se lê em alguns documentos primitivos.
Significa afirmar que pretendemos encontrar, à vista de fatos acontecidos no decurso do tempo, aliados a documentação esparsa conservada em arquivos oficiais, e aproveitando pesquisas transcritas em obras de estudiosos historiadores, os primeiros que se fixaram nestes sertões com o ânimo de permanecer ocupando a terra de modo a que ela, paulatinamente se constituísse no Apiaí que hoje é ou que passou a ser a contar do século XVIII.
Relatamos que a primeira expedição exploradora mandada por Martim Afonso de Souza partiu de Cananéia, seguindo a rota do rio Ribeira que em seu trecho mediano dista pouco mais de vinte quilômetros de Apiaí, cujas minas passaram a ser vasculhadas pouco tempo depois.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
E a primeira referência concreta sobre Apiaí, foi traçada pelo sociólogo e historiador francês, Saint Adolphe, que entre fins do século XVIII e inícios da centúria seguinte residiu por vinte e seis anos consecutivos no Brasil, percorrendo diversas paragens de suas províncias, coligindo a origem e a história de cada uma de suas cidades, vilas e aldeias. Sua informação é curta porém proveitosa:
APIAHY - Villa pobre e pouco povoada da província de São Paulo, na quarta comarca, e sobre a estrada de Curitiba, aos 24 graus e 22 minutos de latitude. No ano de 1600, alguns indivíduos assentaram vivenda nas nascentes do Iguapé, nas margens do rio Apiahy, para extrair ouro em minas que foram mais ou menos rendosas no decurso dum século; porém, à proporção que o ouro ia diminuindo, diminuía também a povoação deste lugar; assim foi em vão que se deu o título de paróquia à igreja dedicada a Santo Antonio de Lisboa, com o fim de ali se reter os habitantes; continuaram as emigrações mesmo em 1770, quando esta população foi elevada à categoria de Villa pelo governador D. Luiz Antonio de Souza Botelho”.

Pouco mais tarde, entre 1.845 e 1.856, percorreu esta região, em caráter oficial, por conta do governo da província paulista, o engenheiro alemão doutor Carlos José Frederico Rath, que resumiu suas longas observações, no seu “Memorial Descritivo da Villa de Apiahy”, em que destaca : “A atual Vila de Apiahy é composta de poucas casas semeadas no espaço aqui e acolá, e uma rua só merece esse nome porque tem algumas casas de ambos os lados. Uma capela consagrada a Nossa Senhora do Rosário, e construída sobre um pequeno outeiro, situado na parte ocidental do denominado “Morro do Ouro”, isto é, na base do Morro (Morro do Ouro - 3.090 pés). No verão de 1.847 houve chuva de pedras havendo entre elas do tamanho de ovos de galinha e maiores, que principalmente arruinaram o teto da capela inteiro, e quase o de todas as casas. Junho (princípio) 5 noites para geada, as manhãs 2 a 3 graus abaixo da geada, com neve em algumas partes. A primeira povoação dizem que foi estabelecida em 1.600 por habitantes da parte inferior da Ribeira; e isto por causa do ouro que eles acharam em todos os rios acima. Vêem-se ainda as pedreiras estéreis das antigas lavagens de ouro, e o lugar onde estavam as casas ou para melhor dizer os ranchos. Quando estes procuradores de ouro descobriram que havia ouro nessa massa de ruínas do vale, na parte meridional do Morro de Ouro, então eles todos foram se mudando sucessivamente para lá e aí construíram suas casas, sem plano e onde mais lhes agradava. Assim formou-se a denominada Vila Velha, isto foi pelo ano de 1.760 a 1.770. Eles obtiveram permissão de construir uma Igreja Paroquial, que era consagrada a Santo Antonio de Lisboa; eles eram muito zelosos em seus negócios de lavar ouro e descobriram o conteúdo de ouro do Morro.”
Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy
Posteriormente foi um pesquisador pátrio - Alfredo Moreira Pinto -, quem mais exaustivamente discorreu sobre Apiaí, destacando-se de seu trabalho preciosas informações colhidas de terceiros no ano de 1887:
APIAHY - “Esta Villa foi fundada em tempo remotíssimo, cuja data não nos é possível indicar. Apenas restam algumas notas no Livro do Tombo da Câmara Municipal. Não obstante as dificuldades que se nos apresentam, à falta de documentos que possam comprovar o histórico desta Villa, vamos todavia proceder a um exame, auxiliado por fenômenos geológicos e posições naturais da terra, que por si só atestam os lugares aonde tiveram localização os primitivos habitantes. É opinião geral que esta vila fora começada por dois irmãos viajantes que, perdendose nos sertões, aí começaram as suas lides auríferas, dando causa, pelo muito lucro que auferiram, a que os grandes viessem a título de governador de capitanias, aforar a posse deste terreno e constituí-lo em um verdadeiro empório mercantil. Afirmam geralmente que a sede da primeira povoação fora no lugar denominado Pião, a duas léguas desta villa, fazenda hoje pertencente ao major Carlos do Amorim. Daí mudaram-se para Vila Velha, um arrabalde onde se vêem até hoje edifícios públicos como: igreja, casa do governador da província e um velho alpendre. Da Vila Velha data a primeira idade histórica das grandes minerações de ouro. Aí trabalhavam grande quantidade de escravos pertencentes a uma D. Anna; e nos diz a história que o ouro era extraído em arrobas. Faz crer isto a posição geológica do morro que baixou devido a uma galeria subterrânea feita sem os auxílios da arte. Nesta galeria consta que ficaram enterradas mais de trezentas ou quatrocentas pessoas. Um velho octogenário, com quem conversamos, disse-nos que nesse lugar ele trabalhou com as pessoas que lá ficaram enterradas e que dentro do mesmo subterrâneo tinha ficado uma canastra de ouro em pó! Hoje vemos grandes escavações que nos mostram o trabalho imenso dos antigos. Da Vila Velha mudaram a povoação para a vila, ora existente, pela má posição daquele terreno, e pelo afamado Morro do Ouro, donde os habitantes esperavam auferir grandes riquezas, como auferiram. Foi na terceira villa que tiveram lugar as grandes minerações de ouro, já exercidas por ordem do governador geral, enquanto que as outras minerações eram de iniciativa particular. A grande quantidade de gente que para ali acorreu, com o único intuito de registrar a posse de terrenos auríferos, o comércio ativo que entretinha com a capitania da província, então capitania especial, deram lugar a que fosse em 1771 erecta vila pelo capitão general D. Luiz Antonio de Souza. D. Anna, grande proprietária, quando veio à terceira povoação, trouxe uma imagem de Santo Antonio de Padua, e sendo possuidora de um terreno, legou-o como patrimônio àquele santo”.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Por derradeiro, relata o insigne Monsenhor Luis Castanho de Almeida, as fls. 9 do extraordinário livro “A Diocese de Sorocaba e seu Primeiro Bispo”, editado em 1.974:
“...Esses Monges Beneditinos em 1.693 obtiveram a primeira sesmaria além do rio Sarapui, “no caminho de Curitiba” aberto a pata de gado, ladeado por imensas sesmarias que iam sendo concedidas, até que em 1.721 o Ouvidor Rafael Pires Pardinho determinou ficasse o rio Itararé por limite das duas vilas (municípios) de Sorocaba e Curitiba. Até este rio havia algum gado e o fazendeiro, então sinônimo de curraleiro, para vigiar. Eis que na mesma época em que lá longe os sorocabanos fundavam Cuiabá aparecerem em seu município mesmo, na beira ocidental do Paranapiacaba, as minas de ouro de Apiaí e Paranapanema, logo povoadas por alguns brancos, que em 1.728 receberam sesmarias e muitos administrados índios, caboclos e escravos africanos. Ambas as freguezias foram criadas em 1.746.
Aliás, o que informaram Saint-Adolphe, Carlos Rath, Moreira Pinto e o Monsenhor Castanho, vem confirmar a referência feita por Francisco de Assis Carvalho Franco a respeito do bandeirante Domingos Rodrigues da Cunha:
“Sertanista de São Paulo que andou com seu irmão Antônio em explorações de minas de ouro, no ano de 1665, na zona de Cananéia, Ribeira de Iguape, Iporanga, Xiririca e Apiaí”.
Para se compreender matéria que mais adiante abordaremos, é conveniente lembrar que Santo Antonio de Lisboa é o mesmo Santo Antonio de Pádua, que o lugar denominado Pião está encravado no imóvel Pião e Moquém, tido e havido como de ocupação primária por parte de Carlos Antonio do Amorim, localizado no distrito de Araçaiba, antiga Capoeiras, e que a Vila Velha e o Morro do Ouro, estão integralmente dentro dos imóveis “Agua Limpa” e “Paiolzinho” que dentre outros pertenceram a Anna Marta Duarte, a D. Anna a que faz alusão Alfredo Moreira Pinto.
Outrossim, para evitar possíveis confusões, é bom anotar que nas imediações de Apiaí existem dois ribeirões com a mesma denominação “Água Limpa”. Um deles nasce na face Sul do “Morro do Ouro”, serve de divisa entre o imóvel também chamado “Água Limpa” e o bairro Cordeirópolis, atravessa o bairro Palmital e vai se despencar na cachoeira do Calabouço, engrossando lá em baixo o ribeirão Palmital. O outro, que se atravessa mais ou menos no quilômetro cinco da rodovia Apiaí-Itapeva, corre distante do “Morro do Ouro”, na direção Oeste para Leste, vai desembocar no rio Pião, afluente da margem esquerda do rio “Apiaí-Guaçú”, integrante da bacia do Paranapanema. Como se percebe, os ribeirões homônimos seguem em direções completamente opostas. É nas imediações do ribeirão “Água Limpa”, o primeiro nomeado, que estão as ruínas da “Vila Velha do Pião”, primeiro assentamento de Apiaí. Cordeirópolis está nas imediações do segundo nomeado, e foi ali que se desenvolveu o segundo assentamento de Apiaí, local antes conhecido pelo apelido simples de “Vila Velha”. As terras rurais da Província de São Paulo, até meados do século XIX, ainda não estavam cadastradas e não havia um sistema funcional no registro imobiliário. Com o propósito de regularizar a situação, o governo da província editou a Lei nº. 601, de 18 de Setembro de 1850, e pouco mais tarde o Decreto nº. 1.318, de 30 de Janeiro de 1854, determinando àqueles que possuíssem terras, que as declarassem ao Vigário da respectiva paróquia, que as fazia registrar num livro próprio, tudo dentro de um determinado prazo. Esse registro é conhecido como “Registro do Vigário” e os livros correspondentes estão cuidadosamente arquivados no Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo. Os declarantes eram tidos como ocupantes primários, equivalentes a ocupantes por sesmaria. O sítio “Pião e Moquém”, foi declarado no “Registro do Vigário” por Antonio Carlos do Amorim; os sítios “Água Limpa” e “Paiolinho” por Anna Marta Duarte, casada com Lourenço Dias Baptista.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Recentemente foi que a municipalidade de Apiaí truncou nossa história, nossa memória e a nossa tradição, mudando o nome da mais que bí-centenária “Vila Velha” para “Cordeirópolis”, em que pese a intenção meritória de homenagear distinta família que se desenvolveu em suas imediações.
NOTA: o vocábulo “sesmaria” corresponde a dois significados: “terreno inculto ou abandonado” e medida itinerária, equivalente a 6.000 metros. A “sesmaria” mencionada neste capítulo, tem o primeiro sentido.
FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
Continue lendo, próximo Capítulo:
~~~> A FIXAÇÃO DO POVOADO
Palavras chave: HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS DE APIAÍ - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - FOTOS DA CIDADE DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA