A FIXAÇÃO DE APIAÍ - CAPÍTULO III

 Do que relataram os historiadores e pesquisadores, do que nos legou a tradição oral, dos vestígios até hoje existentes, torna-se incontroverso que o povoado mineiro de Santo Antonio das Minas de Apiahy, tendo se iniciado no “Pião”, esparramou-se gradativamente, alcançando a “Vila Velha” e por fim o “Paiolinho”, onde a cidade pontificou e se fixou para constituir-se na cidade de Apiaí propriamente dita, paragens que se desenvolveram pelos setores Norte, Sul e Oeste do “Morro do Ouro”, respectivamente.


Na fase áurea da mineração nos páramos de Apiaí, o processo de garimpagem ou faiscação, dada a grande quantidade de ouro de aluvião, facilitava o seu recolhimento através da bateia de madeira feita de raiz de figueira brava ou pau d’alho ( leve e resistente ), ou por intermédio de um sistema dos mais adiantados para a época, representado pela “bica”, “canoa” ou “caixote”. Sobre tal utensílio a água era corrente; o fundo do “aparelho” continha leves obstáculos de sarrafo. Jogava-se o cascalho sobre a água corrente da bica que era vibrada manualmente por dois homens, melhor dizendo por dois escravos. A escória (terra, pedrisco imprestável, etc), era levada pela água e o ouro, em pó ou em pepita, bastante pesado, ia ao fundo e permanecia preso nos obstáculos de sarrafo.

Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque


Com o escasseamento do ouro de aluvião, o minerador mais privilegiado, com a mão de obra escrava mais barata, tentou a exploração do “Morro do Ouro”, primitivamente conhecido como “Morro da Descuberta” e “Morro de D. Pedro”. Edmundo Krug dá sua abalizada explicação sobre o método então utilizado:
“Já o mineralogista Henrique S. Bauer, que viveu e se casou na apreciada zona, afirmava que qualquer empresa, organizada para a exploração de ouro, deveria pensar no ouro contido na rocha. Outro fato que confirma a asserção de Bauer é que os antigos mineiros de Apiahy desprendiam a rocha do cume do Morro do Ouro e atiravam-na na fogueira para depois de aquecida, jogarem-na na água. Isso com o intuito de livrarem o ouro da pedra. Achamos no Apiahy montes enormes desse cascalho retirado das águas, que, passado pelos pilões e, tratada a areia obtida com azougue, davam um resultado bastante compensador”. ( O Ribeira de Iguape - Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo - 1939 - páginas 59 e 60 ) Souza Barros que pretendia explorá-lo, depois por Antonio de Aguiar Melchert que tentou lavrá-lo, e finalmente por David Carlos Mac Night que nele procedeu a estudos meticulosos de prospecção a contar de 1922, é constituído de “filitos dolomíticos do algonkiano inferior os quaes se acham por toda a parte profundamente alterados, a oeste, junto à cidade apresenta uma faixa de mármore cinzento escuro cortada por um dique de diabásio para nordeste na direção de Pinheiros, e para o sul, no rumo do Taquarussú, nele afloram batolitos de granito porfiroide intrusivos na série proterozóica, enquanto que suas entranhas são entrecortadas de vieiros de quartzo aurífero, o que tudo torna bastante penosa a mineração pelo sistema utilizado nos afloramentos de aluvião”. ( Pandiá Calogeras- As Minas do Brasil e sua legislação - págs. 431/432)

Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque

A primeira e possivelmente a maior razão de os primitivos garimpeiros não haverem trabalhado o Morro do Ouro com maior afinco reside naqueles óbices. A segunda foi a circunstância de o Morro do Ouro haver permanecido como de exploração exclusiva e direta da Coroa portuguesa mediante concessões de datas minerais com 144,760 braças quadradas cada uma, e os demais afloramentos esparsos por suas imediações mediante iniciativa de particulares, a maioria constituída de faiscadores aventureiros.
Tanto era problemática a mineração do Morro pelos métodos precários do garimpeiro, que aqueles que se atreveram a trabalhá-lo numa escala mais agressiva, sofreram sério insucesso, tal qual o desmoronamento noticiado por Alfredo Moreira Pinto, e que teria produzido mais de uma centena de vítimas fatais.

Foto: Morro do Ouro Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy



Essa catástrofe que causou grande comoção ao seu tempo, aconteceu na face Sul do Morro do Ouro e ficou marcada por uma sensível depressão que se percebe até hoje. No ano de 1943 um geólogo ou antropólogo vindo do Rio de Janeiro realizou escavações no local e dali conseguiu retirar uma tíbia praticamente intacta, que pelo seu tamanho avantajado foi atribuída a um escravo que seria originário de uma tribo “cabinda”, da Africa distante. (depoimento de Pedro Lucas Evangelista, que por muitas décadas, foi zelador do Morro do Ouro, por conta da Companhia Mineração Apiaí)
E o já citado engenheiro Carlos Rath descreve minuciosamente a evolução da mineração aurífera em Apiaí e de como o povoado peregrinou por três locais próximos mas diversos:
“Dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, governador da província, deu ao lugar por suas súplicas, o título e direito de uma vila. Solícitos e zelosos estes homens trabalharam nesta sua única ocupação (garimpagem de ouro), porém sem plano e sem conhecimento da matéria. Em um lapso de 60 anos foram os vales, os declives do morro do ouro, e mesmo as casas, a cadeia, a igreja, etc., escavados, lavados, submergidos e soterrados! Ainda hoje o lugar, ou antes, as ruínas e vales, apresentam um painel medonho e horroroso de desolação aos olhos do espectador. Na Vila Velha construíram casas 3-4 habitantes, em tempos mais modernos. No ano de 1.820 a população do distrito era calculada em 2.000 a 2.500 almas: atualmente (1.855, data do seu relatório) 4.000 habitantes, isto é com os escravos. Por causa desta desolação o ouro achado diminuiu muito, e então alguns tentaram minerar também o Morro do Ouro. Eles fizeram com grande trabalho, verdadeiros buracos de Tatú, sem previsão alguma, nem plano ou conhecimento de sua tarefa; e assim aconteceu, pois mais de 30 pessoas perderam a vida, por causa de que toda a mineração foi posta de parte. A ultima grande tentativa foi feita em tempos recentes, por um habil e bem conhecido ourives, o qual fez um poço de alguns cem palmos de fundos, que até hoje existe aberto. O minério penetrou nas pedras de ferro, no cume do morro, para achar o ouro no centro com mais segurança. Esta obra insensata não podia levar a algum fim; porque é preciso ter estudado mineralogia e principalmente geognosia para poder empreender uma obra destas com alguma certeza. A natureza apresenta mesmo ao conhecedor enigmas difíceis de resolver! Com a subida do preço dos negros o negócio também parou, e a pobreza cresceu. Os habitantes do valo devastado foram em parte habitar o terceiro lugar 3-6 léguas em redor, estabelecendo plantações nos matos virgens. Eles experimentaram a criação de gado, de cavalos, etc., porém no espaço de um ano a dois morreram todas as suas criações da peste (garrotilho). Aqueles que se retiraram para a ribeira plantam arroz e cana e todos os viveres deles usados como o milho, mandioca, banana, feijão; eles criam porcos, galinhas, etc, e ainda tem a vantagem de poderem ter sempre peixe fresco”. Sobre o descalabro praticado pelos faiscadores, no trabalho desordenado dos afloramentos de Apiaí, fala o engenheiro Othon Henry Leonardos, do Departamento Nacional da Produção Mineral, em seu trabalho “Chumbo e Prata no Estado de São Paulo”, publicado em 1.934: “Despido de vegetação pelas queimadas, o Morro do Ouro a 1.200 metros sobre o mar. No sopé da montanha a Vila de Apiaí, três vezes reconstruída pelos faiscadores de ouro, alastra-se com seu casario pobre, à espera que novos braços de aventureiros venham desencantar suas minas”.
Aliás, o doutor Carlos Rath já havia feito referência à confusão criada na Vila pelos garimpeiros de ouro. Será bom fixar-se, então, no tempo e no espaço, os locais em que foram trabalhadas as reservas auríferas desta região, de modo a se saber como e quando a população de mineradores passou a locomover-se até que viesse a reunir-se com ânimo definitivo no que hoje é a cidade de Apiaí.

De princípios de 1.600 até 1.750 pode ser compreendida a fase do “Pião”, onde Santo Antonio das Minas de Apiahy nasceu, cresceu e floresceu, tornando-se mesmo Freguesia do Bispado de São Paulo, com sua Igreja, com seu primeiro pároco o Padre João Monteiro a promover o primeiro batizado quando ungiu com os santos óleos a Antonia, filha legítima de um casal de escravos do Capitão Mor Francisco Xavier da Rocha, no dia dois de julho de mil setecentos e trinta e seis, quando serviram como padrinhos, Crispim, escravo do mesmo Capitão, e Rosa, escrava de Francisco Pedroso, todos domiciliados no local. ( Primeiro livro de batismos paróquia de Santo Antonio das Minas de ApiahyArquivo da Cúria Diocesana de Itapeva, fls. 36).
Foi justamente ali que esteve presente o Governador Geral da Província de São Paulo, Dom Antonio da Silva Caldeira Pimentel, com o Ouvidor Geral e Corregedor, para recolher pessoalmente o tributo do “quinto” devido pelos mineradores.
Com a redução do ouro aluvional no “Pião”, o grosso dos mineradores foi se juntar àqueles que em minoria já se encontravam exercitando a mesma atividade na Vila Velha, hoje Cordeirópolis, imediações do ribeirão “Água Limpa”, ao Sul do Morro do Ouro, onde já se havia levantado uma capela em homenagem a São Benedito, por iniciativa de escravos e forros.
No “Pião” permaneceram alguns cuidando de lavouras de sobrevivência, espreitando a gradativa decadência das construções de taipa ali deixadas. No ano de 1943, o doutor Lizandro de Campos Sales, realizando perícia no local, determinada no curso do processo do quadragésimo oitavo perímetro desta comarca, fotografou restos dos alicerces de algumas daquelas edificações.
Da intensa mineração que existiu no “Pião”, restaram montões de pedregulho e cascalho lavados, e o próprio nome Pião” que se vinculou àquelas terras. O vocábulo “Pião” lembra muito bem o garimpo, pois a parte funda da bateia, acentuadamente côncava, sempre foi chamada de “pião” pelo garimpeiro.
“...O encarregado da bateia imprimia-lhe um movimento ritmado de rotação, de cuja prática depende não se perderem as pedras preciosas, que desastradamente podem ganhar a tangente. Com esse movimento o ouro, em virtude do seu peso, deposita-se no fundo, ou “pião”, e assim acontece às suas formas, como o “esmeril”.
Como no “Pião”, Santo Antonio das Minas de Apiahy não possuísse vida administrativa organizada, própria e autônoma, pois devia obediência ao Termo de Sorocaba e à Comarca de São Paulo, erigindo-se apenas em Freguesia do Bispado também de São Paulo, escassos são os dados informativos da seqüência do que ali ocorreu, além do que já foi relatado.
Finalmente, administrativa e territorialmente tudo definiu-se com aquele ato de Dom Luis Antonio de Souza Botelho Mourão, o Morgado do Mateus, mandando que o povoado de Apiahy fosse elevado a Villa, o que aconteceu no memorável 14 de Agosto de 1771, encarregando o Sargento Mor Custódio Francisco Pereira de executar suas ordens.
Ao serem elas expedidas o povoado de Santo Antonio das Minas de Apiahy estava já definitivamente assentado no imóvel “Paiolinho”, à margem direita do “Canal do Ouro”, na região à Oeste do Morro do Ouro, onde se desenvolveu a cidade de Apiahy. O “Pião” passara a ser a “Vila Velha do Pião” e a “Vila Velha”, hoje “Cordeirópolis”, um simples bairro ou apêndice do núcleo central.
A vida inteira dos primórdios de Apiaí, entretanto, está gravada no livro dos termos de vereança de sua Câmara, com as atas de suas sessões, aberto a 8 de Janeiro de 1774, e todos os livros da antiga Câmara de Santo Antonio das Minas de Apiahy estão bem guardados e bem conservados no Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo.

Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy


Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy



Alguns pesquisadores lançaram uma controvérsia, e alguns estudiosos colocaram em dúvida sobre os locais onde “tem estado o povoado de Santo Antonio das Minas de Apiahy” no decurso do tempo. Mas diversas circunstâncias dissipam tais controvérsias e dúvidas.
Na seqüência dos escritos da época, verifica-se que foi ocorrendo uma variação na nominação local, a contar de “Santo Antonio das Minas de Apiahy” (primeiro batistério, primeiros termos de posse, primeiros termos de despesas e prestações de contas, primeiros atos privativos do Juiz Presidente da Câmara), para “Villa Nova de Santo Antonio de Apiahy”, (termos lavrados lavrados após aqueles), “Santo Antonio de Apiahy” (pouco antes da demarcação do rocio), e finalmente “Villa de Apiahy” com total preferência (depois do termo de afixação do pelourinho e demarcação do rocio, datado de seis de agosto de mil setecentos e noventa e sete).
Bastante sugestivas são a menção na correspondência oficial e nos termos camerários da época, à “Villa Nova de Santo Antonio das Minas de Apiahy”, com destaque a contar do “Termo de Despesa” lançado no livro próprio, no dia 10 de Janeiro de 1774, e que vem a ser o seu termo de abertura :
“TERMO DE DESPESA -Aos dez de janeiro do ano de mil setecentos e setenta e quatro nesta Vila Nova de Santo Antonio das Minas de Apiahy, estando presentes todos os Oficiais da Camara mandou o Procurador Alferes Antonio Martins Chaves que se entregasse dez oitavas de ouro ao Sargento Mor Custódio Francisco Pereira para que este remetesse ao Meritissimo Corregedor da Comarca desta, das rubricas dos livros desta Camara e para constar lavrei este termo em que assinarão. Eu Luiz Gomes da Costa escrivão que o escrevi. (a) Custódio Francisco Pereira”.
“VILLA NOVA de Santo Antonio das Minas de Apiahy” não pode ser outra senão a Villa que se desprendeu da “Vila Velha” e do “Pião”, e que recentemente havia se assentado no “Paiolinho”, antes chamada de “Arrayal do Morro” ou do “Descuberto”. Não há como fugir dessa conclusão. E a confirmá-la existe até decisão acolhida pela justiça comum desta comarca, que se instalou a 25 de agosto de 1892.
No ano de 1937 a Fazenda do Estado de São Paulo, por intermédio da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário ajuizou as chamadas ações discriminatórias contra grande parte dos possuidores e proprietários de terras do Município de Apiaí. Seu objetivo era o de definir quais as terras do domínio particular e quais as devolutas ainda que tituladas. Foram ajuizadas setenta e uma ações, distribuindo as terras num mesmo número de chamados perímetros. Delas forçosamente participaram, cada qual procurando defender seu patrimônio, a Prefeitura Municipal de Apiaí e a Cúria Diocesana de Santos ( A paróquia de Apiaí àquela época estava agregada à Diocese de Santos ). Esta defendia o patrimônio de Santo Antonio, e aquela as terras públicas municipais. Houve necessidade de esclarecer aquilo que parecia controvertido : o pelourinho que foi o marco da autonomia do Município teria sido fixado na “Vila Velha do Pião” ou no “Paiolinho” ? A resposta a essa pergunta viria antes de mais nada definir a localização jurídica das terras da municipalidade.
No quadragésimo oitavo perímetro realizou-se acurada perícia e o resultado acolhido pela sentença então prolatada constatou que o pelourinho não poderia ter sido cravado noutro local que não no “Paiolinho”, mais exatamente no pátio fronteiriço da Igreja Matriz de Santo Antonio, existindo ali um marco de concreto que o lembra. Ao tempo da fixação do pelourinho, ou seja, em 1797, Apiaí já estava plantada onde hoje está e onde continua a crescer.

Fonte da imagem: Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy

FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ

 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃOOSWALDO MANCEBO.


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