A camera de Apiahy escrevo estranhando-lhe o descuido que tem tido em abandonar a guarda do Morro e ordenando lhe a fação com a mayor exacção, e que me remetão a pedra cheya de ouro, que se acha arrancada, e se não executarem a risco as minhas ordens, procederei contra eles com as penas que merecerem pela sua rebeldia. Deus Guarde a Vossa mercê. São Paulo a 7 de Setembro de 1777. Martim Lopes Lobo de Saldanha”.
A lambada que S. Excia. o Governador aplicou à Câmara está assim redigida
(redação da época):
“Nada me é tão sencivel como os meus subditos abuzarem das minhas ordens, e com a frouxidão da execução delas concorrem para a dos servissos de S. Magestade pelo que constandome que essa Camera, esquecida dos seus devereslevantou a Guarda que mandei por no Morro, que promete Minas, deixou este adesquerição abandonado a todos os que nele quizerem trabalhar, vou estranhar avosmeces muito, semelhante desordem, e ordenar lhes, que sem perda de humminuto mandem por no dito Morro a guarda, que lhe tinha determinado, de onde a não levantarão sem ordem minha, pena de proceder contra vosmeces com aquele rigor de que ja estão merecedores pelo mal que tem obrado. Nos lavrados de Custódio Francisco se acha ua pedra, que ele tinha quebrado no Morro para amoer, o que não fes pela preça, e a escondeo debaixo de hum pouco de terra, aqual está meya fora da terra; ordeno a vosmeces a fação conduzir a esta cidade acaza da Fundição, que pode vir em hum cargueiro, entregando-se a hum homemcapas de dar conta dela, e entregandolha vosmeces pezada, em presença de toda a Camera, e do seu pezo mandarem uma certidão autentica para a vista dela setornar na caza da Fundição, o que dou a vosmeces por muito recomendado. DeusGuarde a Vosmeces. São Paulo a 7 de setembro de 1777. Martim Lopes Lobo de Saldanha”.
Aí estão transcritas as primeiras notícias que se tem a respeito do Morro do Ouro, que até aquela época ainda não tinha um nome que o distinguisse. Começou a ser chamado “Morro da Descuberta”, a partir de então, como veladamente se percebe daquele expediente do Governador ao seu subdito.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Como não poderia deixar de acontecer, a indigitada pedra foi entregue à Câmara pelo próprio Custódio Francisco Pereira (já Tenente Coronel) e a guarda do Morro foi restabelecida, consoante consta da ata lavrada a 5 de Fevereiro de 1778 (redação original):
“Termo de Camera - Aos cinco dias do mes de fevereiro de 1778 anos nesta Villa de Apiahy, em casa da Camera estando presente o Juiz Presidente o Capitão Antonio Duarte do Valle e mais officiais da Camera para efeito de se fazer uma carta para o Ilmo. Snr. General a respeito da pedra que o Tenente Pereira veio trazer por ordem do mesmo senhor aonde tambem se escreveo uma carta ao Capitão Mor Francisco Xavier da Rocha a respeito de uma provisão que o dito Capitão tinha mandado fazer com uma guarda que esta Camera tinha mandadopor no morro. E por não haver mais requerimento das partes se deo a Camera porfinda e acabada. Do que para constar mandou dito Juiz lavrar este termo por mimProcurador de que se asignão o escrivão Manoel Ferreira que escrevi. (a) Duartedo Valle (aa) assinaturas ilegíveis.
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E no dia catorze seguinte a Câmara pagava a Francisco Leite oitava e meia de ouro proveniente de três pares de bruacas utilizadas para o transporte da pedra do morro, partida em pedaços, até o destino indicado pelo Governador, conforme anotado no livro caixa pelo Procurador respectivo.
A preocupação da Coroa em manter sua hegemonia e monopólio na exploração do Morro do Ouro era bem saliente, o que vem demonstrar a riqueza que ele continha, como se deduz das sucessivas providências que determinou paramantê-lo a salvo de incursões de particulares ou estranhos:
Ofício de 1/2/1781 - determinando à Câmara providências contra negros que se vão juntando na Vila e seu Termo por conta do trabalho no Morro em que se tira ouro, fazendo com que estes fujam deste e se refugiem pelos matos...e mandandonomear Capitães do Mato para capturá-los.
Logo em seguida, a 21 de maio de 1781 a Câmara, com a presença do JuizPresidente e demais Oficiais deu posse sob juramento dos Santos Evangelhos, aLeonardo Rodrigues Cunha para “sem dolo nem malícia, afeição ou desafeição,servir como Capitão do Mato de todo este distrito”. Para capturar o escravo foragido o Capitão do Mato servia-se de artifícios vexatórios e cruéis, como do auxílio de cães farejadores, correntes, golilha, gargalheira, vira-mundo, algemas, peias, etc.
Oficio de 19/6/1781 - alertando Gonçalo Duarte do Valle, Juiz Ordinário, sobredesordens causadas por Estevão de Souza Maya e seus irmãos e mandando fossem revistados todos que entrassem no “Descuberto”.
Ofício de 19/6/1781 - determinando à Câmara que mandasse destruir o rancho de José de Oliveira Rosa que a Câmara havia autorizado juntamente com uma venda no caminho que segue do Morro para baixo e fazendo outras severasrecomendações.
Ofício de 4/5/1779 - mandando à Câmara da Vila de Parnaiba “aprontarmantimentos para o Destacamento de Cavalaria que vay pro Descuberto deApiahy”.
Oficio de 1/3/1780 - para o Cabo D’Esquadra João Roiz, da Vila de Parnaiba, marchar para o Destacamento do Regimento de Apiahy.
Ofício de 23/8/1782 - ratificando sua certeza, ao Tenente José Pereira da Silva, de se descobrir terceira formação no Morro.
Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque
E a Câmara, por sua vez, em sessão realizada no dia 10 de outubro de 1783, nomeava, sob juramento dos Santos Evangelhos, a Joaquim Barbosa da Silva, para servir como Guarda Mor das minas encravadas no Morro. Esgotados os mais visíveis vieiros auríferos do Morro do Ouro naquelesprincípios do século XIX (19), e quando o núcleo populacional passou a viver da exploração agrícola da terra, a Coroa portuguesa pouco a pouco foi se desinteressando de vigiar o Morro, cujas terras passaram a ser ocupadas por particulares. O Morro do Ouro estava e está encravado no imóvel “Água Limpa” que pertenceu ao casal de Lourenço Dias Baptista com Anna Marta Duarte por ocupação primária, tanto que foi registrado em nome deles no chamado “registro paroquial”, no ano de 1.856.
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Falecendo o casal de Lourenço Dias Baptista com Anna Marta Duarte, seus herdeiros José Dias Baptista, João Dias Baptista, Thomé Dias Baptista, JoaquimDias Baptista, Thomaz Dias Baptista, Lourenço Dias Baptista, Francisco AntonioPereira de Oliveira e Lourenço de Oliveira, estes dois como cabeças de seusrespectivos casais, doaram a seu tio João Paulo Dias o imóvel “Água Limpa” jáapelidado de “Morro do Ouro”. Numa execução movida pela Fazenda Federalcontra o espólio de João Paulo Dias , pela comarca de Xiririca, no ano de 1.865, oimóvel já denominado simplesmente “Morro do Ouro” foi penhorado, levado àpraça e arrematado por Diogo Rodrigues de Moraes. No ano de 1.899, seus filhos,Diogo Rodrigues de Moraes Júnior, Dario Carneiro Rodrigues de Moraes e DeodatoJosé Rodrigues de Moraes, nesta comarca de Apiaí, demarcaram judicialmente oimóvel “Morro de Ouro”, já desmembrado, como um todo uniforme no restante dosítio “Água Limpa”, acusando uma área de 89 alqueires e oitenta e quatro centésimos de alqueire. “O Morro do Ouro”, com aquela área, juntamente com o “Água Limpa”, anexo, com a área de 137,00 alqueires, foram vendidos posteriormente a Antonio
de Aguiar Melchert, cujos herdeiros os alienaram a David Carlos Mac Night, Frank Edward Krug e Jose Augustin Charnley. Posteriormente, por convenção redigida em tabelionato, já falecidos David Carlos Mac Night e Frank Edward Krug, o condomínio existente no “Morro do Ouro” e na “Água Limpa”, passou a ser o seguinte: Companhia Mineração Apiaí 20,5%, Jose Augustin Charnley 33,33%,espólios de David Carlos Mac Night e Frank Edward Krug 23,08% para cada qual. Pelo menos até 1978 tal era a situação condominial naqueles dois imóveis,conforme assentamentos existentes no cartório imobiliário local. Antonio de Aguiar Melchert, por primeiro, e depois David Carlos Mac Night associado a Krug, tentaram a exploração racional e intensiva das reservas auríferas do “Morro do Ouro”, aplicando grande numerário em seus empreendimentos, inclusive com pesado maquinário trazido para cá nos trinta primeiros anos deste século. O empreendimento exigia investimentos mais elevados e todos desistiram da empreitada.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
Quem por derradeiro explorou racionalmente o “Morro do Ouro” foi um grupo japonês, em 1940, após arrendamento ou coisa que o valha, avençado com aCompanhia Mineração Apiaí Ltda., da qual sócio majoritário e presidente JoãoBatista Anhaia de Almeida Prado, “Boni”, falecido há pouco. O grupo nipônicochefiado aqui pelo engenheiro Takeo Kawai, trabalhou o Morro do Ouro e daliextraiu certa quantidade de ouro, até 1943, quando cessou suas atividades, porque a segunda grande guerra, da qual o Brasil participou ao lado dos aliados, contra Alemanha, Itália e Japão, resultou, por parte do Brasil, na paralisação e confisco de todos os bens dos súbditos do “eixo” que se encontravam em atividades consideradas estratégicas em seu território. Via de conseqüência, as atividades no “Morro do Ouro” foram interrompidas e nunca mais alguém tocou no seu subsolo.
Aquele que se aventura a percorrer o “Morro do Ouro”, cuja parte mais alta apelidada “Pico do Corvo” está a 1.060 metros de altitude, em pleno espigãomestre da Serra de Paranapiacaba, observará, na sua face norte, vestígios bemnítidos das valas ou “trincheiras” abertas pelos primitivos mineradores com opropósito de desviar o leito do córrego “Pedra Amarela” para facilitar o trabalhocom bateias e “bicas, o famoso poço de cem palmos de profundidade por uns dezmetros de boca deixado aberto pelo ourives aludido pelo engenheiro Carlos Rath;no corpo do Morro extensas galerias ou túneis abertos pelos mineradores maisrecentes, e na sua face sul grande quantidade de cascalho lavado para livrar o minério de ouro, e restos de algumas construções que abrigavam o laboratório,residências dos que administravam os últimos trabalhos de mineração, os tanques de cianuretação, sinais do local onde se encontravam instalados os britadores, a concentração de minério rico, a aparelhagem do sistema de flotação, a caixa forte onde era guardado o ouro metalizado em barras, a copela e o enorme gerador que fornecia energia elétrica para todo o complexo.
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Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque |
A lavra da jazida do “Morro do Ouro” estava autorizada pelo DepartamentoNacional da Produção Mineral, através do Decreto Federal 21.578, de 28 de junhode 1.932, que não há muito tempo foi declarado caduco, ou seja, sem efeito.
A lavra anterior fora concedida a Richard Creagh, pelo decreto nº: 1.142, de 6 de dezembro de 1.890, subscrito pelo Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, chefe do governo provisório da República, que automaticamente cassou a concessão de que era titular Da. Felipa Dias Baptista por força do Decreto n. 6.122 de 16 de fevereiro de 1.876 baixado pela Princesa Imperial Regente, - a Princesa Isabel.
Foi do “Morro do Ouro” que saiu o ouro com que foi feita, com delicado trabalho manual, a coroa de Nossa Senhora do Amparo, de Itanhaém. Essa coroa, que permitia se chamasse Nossa Senhora de “a virgem de cabelos de ouro” é considerada a mais rica e antiga jóia sacra do Brasil.
FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
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Palavras chave: HISTÓRIA DE APIAÍ - HISTÓRIA DO MORRO DO OURO - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS DE APIAÍ - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - FOTOS DA CIDADE DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA