OS CÓRREGOS E RIOS DA CIDADE DE APIAÍ


Aqueles que por primeiro se fixaram na “Rocinha” e no “Paiolinho”, sítios que vieram a se constituir no perímetro urbano de “Santo Antonio das Minas de Apiahy”, demarcado sob o título de “rocio” na sessão da Câmara realizada no distante dia 6 de agosto de 1797, talvez não houvessem imaginado a implantação do povoado com vistas ao seu potencial hídrico. Todavia acertaram.



   Decorridos tantos anos, tendo o primitivo perímetro urbano sofrido paulatinas alterações, verifica-se que na atualidade ele circunscreve quase que uma ilha em que se desenvolveu a cidade serrana de Apiaí . A Leste a linha do perímetro urbano coincide com o que era o “Canal do Ouro”, seguindo ao depois pelo córrego mestre da “Água Limpa”; ao Sul se aproxima do riacho “Vieira”, que nasce há poucos metros do “Água Limpa”, seguindo, em parte subterrâneo, até sua desembocadura no ribeirão “Tijuco”; a Oeste e Norte, costeia a cidade, esse curso d’água, desde suas nascentes bem próximas da sede do bairro “Pinheiros”, quase encontrando as cabeceiras do “Canal do Ouro”, nas fraldas do majestoso “Morro do Ouro”. No interior desse perímetro estão (ou estavam) os córregos “Fundão”, “Pirizal” ou “Pai Graví” e “Maria Clara”, afluentes da margem esquerda do ribeirão “Tijuco”, e uma porção de pequenos riachos que faziam crescer as águas do “Maria Clara”.

Os cursos de água enumerados tiveram papel preponderante na formação, na evolução e na própria vida de Apiaí, sob todos os aspectos.

   O “Canal do Ouro” é um córrego que nasce no lugar chamado “pedra amarela”, quase no topo da face leste do “Morro do Ouro”, despencando-se pela encosta abaixo e depois seguindo, costeando a base do Morro até desembocar no ribeirão “Água Limpa”, na Vila Velha (hoje Cordeirópolis). Esse córrego, não ultrapassando um quilômetro de extensão desde seu nascedouro até sua foz, está estreitamente ligado à história de Apiaí, a contar dos primeiros dias da Vila, quando esta se denominava Santo Antonio das Minas de Apiahy. Atualmente sua maior parte está canalizada, dele restando aparente e saudável tão só o trecho da encosta do Morro. Quando se iniciou a mineração garimpeira no Morro que por primeiro chamou-se “Da Descuberta”, em seguida “De Dom Pedro” e finalmente “Morro do Ouro”, foi que batizou-se o córrego de “Canal do Ouro”. Porque era ele que alimentava as bateias e as bicas que lavavam o cascalho e faziam luzir o pó e as pepitas do precioso metal. 


Na oportunidade em que Antonio Melchert iniciou a exploração mecanizada da reserva aurífera do “Morro do Ouro”, em fins do século passado, o “Canal do Ouro” foi represado na altura da “biquinha”, formando um belo lago, de onde a água era conduzida por uma vala cavada na base do próprio Morro até a casa das máquinas que se movimentavam para moer as pedras ricas do minério aurífero, concentrando-o e metalizando-o, de forma que, em barras, fosse comercializado.


O “Canal do Ouro” não existiu apenas para servir o garimpeiro e o minerador. Foi útil a toda a comunidade de Apiaí. Até 1921 quando se instalou na cidade o serviço de água canalizada, era do seu límpido leito, acima do trecho ocupado pelas mulheres que lavavam roupas e alfaias, que a população retirava a água de que precisava para saciar sua sede e para limpeza doméstica, transportando a em latas, baldes ou potes. As mulheres traziam o pote de barro equilibrado sobre uma rodilha de pano colocada na cabeça, e um balde em cada mão, transportavam a água até as casas que se localizavam na colina onde a cidade vicejava. 

A contar de 1921, com a implantação do serviço de água canalizada, esta foi captada nas nascentes do “Canal do Ouro”, na “pedra amarela”. A água, evidentemente, não era tratada, porque era pura, quase que mineral. O precioso líquido da “pedra amarela” deixou de ser canalizado para a cidade, pouco tempo depois que a Prefeitura Municipal desapropriou o acervo da Empresa que era concessionária do serviço de água, em 1945. Até então, toda roupa e alfaias domésticas eram lavadas nos sucessivos tanques de alvenaria existentes no “Canal do Ouro”, e postas a secar nos verdes gramados existentes em suas margens. 

O espetáculo oferecido pelas lavadeiras era bastante original e interessante. Elas cantavam enquanto trabalhavam, e as crianças brincavam ao seu redor. O colorido dos panos postos a secar emprestava ao ambiente uma entonação festiva. Ainda mais: a molecada pescava lambaris e bagres em toda a extensão do “Canal do Ouro”, principalmente no seu tanque artificial, local preferido para os namoricos domingueiros e piqueniques familiares. 

O tanque ou lago foi o primeiro a ser soterrado, em nome do progresso, e a parte do “Canal do Ouro” que não foi canalizada, transformou-se num pestilento esgoto.



O córrego “Água Limpa” se constituiu no maior foco da mineração garimpeira de outrora, mostrando aos de hoje, às suas margens, enorme quantidade de pedregulho e cascalho que sobraram das bateias e bicas; suas águas foram o “lava-rápido” dos poucos veículos motorizados que começaram a transitar pela cidade; nos dias atuais o “Água Limpa” é um dos mais importantes mananciais utilizados pela SABESP - Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, para a distribuição da água à cidade de Apiaí, sendo, por isso, o único córrego que restou preservado de todos aqueles que estamos enumerando. Esse importante córrego guarda uma característica peculiar, por ser o único nestas paragens onde são encontradas as utilíssimas pedras de amolar, insubstituíveis para afiar facas, machados e outras ferramentas de gume. Aqui na cidade, noutros tempos, havia pessoas que se mantinham catando e vendendo daquelas pedras, “em par” ou “casal”, ou seja, uma de constituição “grossa” própria para “vazar” ou “assentar” o gume da ferramenta, e outra de constituição “fina” utilizada para afiá-la em seguida.


   O córrego “Vieira” corre de entremeio a formações calcáreas, no sentido leste-oeste, contém pelo menos sete cavernas em suas imediações, e em três espaços é subterrâneo, recebendo as águas de um outro riacho totalmente subterrâneo desde suas nascentes, tudo sob as rochas calcáreas que se constituem no alicerce de toda a cidade de Apiaí.

   O “Tijuco”, também chamado “Água Grande”, é o mais volumoso e mais extenso dos córregos, nascendo no contraforte norte do “Morro do Ouro”, atravessando o bairro “Pinheiros”, tendo sua foz bem lá longe, no rio Ribeira, próximo da cidade homônima. Numa queda nele existente, situada a menos de três quilômetros da cidade, foi que se instalou, no ano de 1920, a primeira usina hidroelétrica do município, que iluminou a cidade com seus humildes trinta cavalos de força, e que foi desativada no ano de 1945; foi esse córrego que ensejou o empreendimento do COGA - Clube de Campo Olímpico Grego-Apiaiense. 

No início da década de trinta, quando suas águas eram bem puras e cristalinas, foram elas utilizadas para uma fábrica de cerveja, que o imigrante alemão, Carlos Achnitz, montou no bairro Pinheiros, enquanto que na mesma década, às suas margens e no mesmo bairro, funcionou durante muito tempo uma fábrica de banha construída pelo engenheiro Alberto Arduini no ano de 1.933, de médio porte, cuja produção supriu a cidade e chegou a ser exportada para centros mais desenvolvidos de nosso Estado de São Paulo. Triste a sina do “Tijuco”, que agora recebe a totalidade dos resíduos dos esgotos de Apiaí.


   O “Pirizal”, que é o mesmo “Pai Graví”, nascendo junto ao bairro “Alto da Tenda”, pouco antes de despejar-se no “Tijuco”, oferece um espetáculo bem bonito com suas sucessivas cachoeiras. O nome “Pai Graví” lembra um velho negro escravo que depois de alforriado morou nas imediações do riacho, onde mantinha uma concorrida tenda de orações, gozando fama de eficiente curandeiro. Esse sítio onde morava, guarda até os dias de hoje a denominação de “Pai Graví”. Sem dúvida que, na pessoa de “Pai Graví”, Apiaí guarda a memória de tantos escravos que aqui trabalharam nos tempos dos garimpos, dos primeiros engenhos e das antigas fazendas e sítios, até que se promulgou a Lei Áurea, que os libertou do hediondo regime do trabalho forçado e não remunerado.







O córrego “Fundão”, que tem suas nascentes na “Vila Tapera”, hoje canalizado em grande parte, com seus característicos monjolos, supriu a cidade com a farinha de milho, essencial alimento de outrora. Outra cabeceira do “Fundão” é o riacho “Água Quente” que possuía uma bica onde muita gente se banhava, aos tempos em que o serviço de água canalizada e a parca distribuição da energia elétrica não permitiam a instalação de chuveiros ou outra forma de aquecimento nas residências. O “Maria Clara”, nascendo junto ao antigo campo de futebol, hoje chamado “campo velho” ensejou durante largos anos, uma diversão saudável para os meninos e jovens da cidade, que se banhavam em suas piscinas naturais e límpidas; após uma disputa futebolística, era em suas águas que os atletas tomavam seu banho; nele lavavam-se os animais de passeio ou de costeio. 


Esse córrego foi totalmente canalizado na parte em que atravessa o perímetro urbano e também recebe detritos de esgotos até sua foz no “Tijuco”. Um afluente do “Maria Clara” era um ribeirãozinho que nascia onde está a praça Alberto Dias Baptista, a principal da cidade, e que paralelamente acompanhava a direção da “rua nova” ao depois nominada avenida Leopoldo Leme Werneck. Numa determinada época cogitouse sua canalização a céu aberto, o que também se propunha ao “Canal do Ouro”; infelizmente esse plano bem arquitetado não vingou e o córregozinho que alguns chamavam de “Nhô Jé”, em homenagem a um antigo morador da cidade que utilizava suas águas para viabilizar seu potreiro, desapareceu por completo, canalizado que foi por manilhas subterrâneas.









Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque

FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ

 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃOOSWALDO MANCEBO.

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ADENDO CÓRREGO MARIA CLARA

Córrego que nasce no centro da cidade de Apiaí, nas proximidades da Cadeia Municipal, no Bairro Campo Velho. É canalizado em alguns pontos e recebe o esgoto de boa parte da cidade.  Seguindo seu percurso, é canalizado por baixo do Ginásio de Esportes Antonio Dimpino de Pontes (quadra coberta) e por baixo do Estádio Municipal Janguitão (campo). Não mais canalizado, segue por trás da Rádio Cidade AM, atravessa a praça de lazer e segue por trás da Garagem da Prefeitura. Segue em direção ao Bairro Alto da Tenda, onde recebe as águas do Córrego do Fundão, Córrego que também recebe o esgoto de Apiaí. É canalizado em uma pequena tubulação que passa em baixo da linha ferroviária da Fepasa, saindo dessa tubulação, o Maria Clara forma a sua maior e mais bela Cachoeira. Percorre cerca de 2 quilômetros até se unir com o Rio Tijuco, rio que nasce próximo ao Parque Morro do Ouro, e que também recebe boa parte do esgoto de Apiaí.



Créditos Foto: Pedro H. Slompo Verneque

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