APIAÍ E A REVOLUÇÃO DE 1932


A 9 de julho de 1932 São Paulo levantou-se em armas contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas, exigindo a Constituinte, e por esse ideal 733 de seus filhos tombaram nas frentes de batalha. O conflito bélico intestino terminou no dia 3 de outubro seguinte, com a capitulação dos revoltosos. Tanto sacrifício não foi em vão, eis que, convocada a Constituinte em 1934, a Carta Magna foi promulgada, glorificando, assim, aqueles que haviam lutado em 1932.

Mas, o que afinal aconteceu na frente Sul, mais precisamente em Apiaí e Ribeira naquele histórico movimento cívico?

Reportemo-nos a informações e dados fáticos.

A 28 de julho Itararé já havia sido conquistada pelas forças “legalistas” de Vargas, tanto que naquela data, Itapeva (então Faxina), teve seu campo de aviação bombardeado por um aeroplano “Potez 212” pilotado pelos constitucionalistas Majores Gomes Pinheiro e Mota Lima, numa tentativa de apoio a forças terrestres que pretenderam sem êxito reconquistar a cidade. (“Dicionário das Batalhas Brasileiras”, Hernani Donato, edição IBRASA, pág. 321)

A 1º de agosto os revolucionários tentam reconquistar Buri, perdida a 16 de julho, e os “legalistas” avançam para Capão Bonito, bloqueando a única rodovia de acesso a Apiaí e Ribeira, onde os constitucionalistas permaneceram encurralados, uma vez que a estrada de rodagem Apiaí-Iporanga ainda não existia.

Logo depois, na narração do mesmo Hernani Donato, confirmada, aliás, pelos mais antigos moradores de Apiaí, ocorreu o seguinte:

“A 6 quilômetros da cidade de Apiaí, a defesa paulista, sob o comando do Capitão Heliodoro Rocha Marques, enfrentou o ataque dos 1.600 homens da força governamental do Coronel Airton Plaisant. O combate era o batismo de fogo de batalhões de voluntários civis. O primeiro assalto foi repelido, ficando três atacantes prisioneiros. No segundo momento, as alas do dispositivo de defesa, em Fazendinha (60 homens) e Banhado Grande (80), foram envolvidas. Apiaí foi superada pela coluna do Coronel Boanerges, a qual, somada ao destacamento Plaisant elevou o efetivo de ataque para mais de 2.000 combatentes (5º RAM 2 baterias com 8 peças; 13º RI, um batalhão; 7º RI, um batalhão; 13º BC; 5º RCD, três pelotões; 2º BC; 1ª Companhia da Brigada Gaúcha). Um destacamento de 160 homens, retirado das trincheiras para retomar o Banhado Grande, foi emboscado na estrada e recuou.O Coronel Boanerges exigiu a rendição condicional, e 600 paulistas sitiados, ao mando do Major Tenório de Brito, romperam pela Serra de Paranapiacaba, e embora perseguidos, ganharam o litoral, Santos, São Paulo e de novo as trincheiras da frente Sul, no rio das Almas, além de Capão Bonito”.

Logo depois viria a rendição (ou traição) em Ribeira, e a conseqüente atabalhoada retirada dos revolucionários pelas trilhas e matas de Iporanga, em busca de Sete Barras e Iguape. Para eles não havia outra alternativa, pois os “legalistas” já haviam conquistado Itapeva e fechado o acesso a Apiaí em Guapiara. O Batalhão de Caçadores do Coronel Barbosa, sediado neste setor Sul, composto de voluntários civis, enfrentou as maiores dificuldades.

Relata o comandante, Coronel Euclides Figueiredo, chefe constitucionalista, em sua obra “História da Revolução Constitucionalista” (Livraria Martins Editora, páginas 193 e 194): ”Desastradas notícias chegam do Setor Sul, que refletem no ânimo dos combatentes em geral. O Major Mario Rangel e o Capitão Vallim, da Força Pública Estadual, são acusados de haverem entrado em entendimento com o adversário, traindo nossas tropas. Em conseqüência, essas abandonaram suas posições, largando material em toda parte. Em Capela da Ribeira, 600 homens comandados pelo Major Azarias, daquela milícia, entregaram-se sem resistência. Apiaí, Ribeirão Branco e Itaoca são invadidos pelas tropas ditatoriais. Todo o batalhão do Coronel Barbosa é levado de roldão, por Juquiá, até Santos, abandonando pelo caminho 300 caminhões, armas e munições. Um desastre completo, cuja notícia não foi possível evitar que chegasse até aos soldados, nas trincheiras”.

A conquista de Apiaí, após a rendição da Capela da Ribeira, custou muito esforço aos “legalistas”, pois aqui valentes constitucionalistas resistiram bravamente, até quando seus recursos permitiram. Recuando palmo a palmo e perdendo preciosas vidas, travaram acirrados e sangrentos combates nas trincheiras abertas no Taquaruçu, bem próximo da cidade, na travessia do rio Palmital, em Itaoca, e por último, num derradeiro esforço, bem próximo ao Alto da Tenda. No Taquaruçu ainda podem ser vistos vestígios de trincheiras daquela época, e ali, quando se cava a terra para o plantio, ainda podem ser encontrados pentes de bala de fuzil, cartuchos servidos e algum outro material de metal, testemunhas dos prolongados tiroteios, cujos ecos chegavam à cidade de Apiaí, então prestes a capitular.

A queda de Apiaí que passou para o comando dos “legalistas”, seguiu-se a desordenada retirada das tropas revolucionárias pelas íngremes e tortuosas trilhas de Iporanga, rumo a Sete Barras e Iguape, e a parcial evacuação da cidade por parte dos que estavam mais estreitamente ligados ao Partido Republicano Paulista (PRP), que se opunha ao Partido Democrata, então unido à Aliança Liberal que levara Getúlio Vargas à presidência. Alguns líderes de Apiaí e Ribeira chegaram a ser presos.

O Prefeito de Apiaí, destituído do cargo, foi substituído por um militar “legalista”, o mesmo acontecendo com o Delegado de Polícia. Apesar da natural repressão, não se tem notícia de ato de vandalismo porventura praticado contra pessoa de nossa comunidade por algum elemento “legalista”. Somente algumas prisões, ainda que injustas e vexatórias, sem maiores conseqüências, e requisições destinadas à manutenção das tropas invasoras, o que tudo se mostrava como conseqüência natural em situação como aquela.

Na desabalada retirada para Iporanga, perseguidos pelos “legalistas”, os voluntários combatentes paulistas, desconhecendo o terreno, sem comando, se mostravam desarvorados; era o “cada um por si e Deus por todos”. Muitos se desviaram do rumo e se perderam pelas matas. Na fuga desordenada iam se desvencilhando dos armamentos e munições, que atiravam à esmo pelas margens do caminho. Muitos anos após aquela epopéia foram encontrados fuzis, capacetes, cantis, sabres, baionetas e pentes de bala corroídos pela ação do tempo, nas grotas e despenhadeiros do caminho dos tropeiros de Iporanga. Em Apiaí e Itaoca, combatentes que não lograram se antecipar à retirada para Iporanga, vagaram por sítios, fazendas e matas próximas, onde eram acolhidos por pessoas que compreendiam as suas dificuldades, lhes proporcionando alimentação, pousada e trajes civis, permitindo, assim, que o combatente passasse desapercebido pelos seus perseguidores.

Nha Perciliana, prestativa cidadã falecida quase centenária, contava que um soldado ao qual dera guarida, que dera de presente na hora da partida um volume da BÍBLIA que fora sua companheira nos dias de luta, Livro que por obra do destino veio a ser a causa de sua conversão. O finado Amâncio Batista do Canto, por sua vez, cedeu meia dúzia de suas melhores mulas para que seis retirantes apressassem a retirada a contar de sua fazenda no Taquaruçu. Nhá Marciana, esposa do político perrepista Cândido Dias Baptista, um dos procurados pelos “legalistas”, se desfez de todos seus frangos e galinhas, preparando “virado” para que servissem de sustento à muitos que se atiravam para os lados de Iporanga. Comerciantes despreendidos, simpáticos à causa constitucionalista, como Nhô Gastão dos Santos Lisboa e tantos outros, também não fizeram questão de fornecerlhes farinha, carne seca, latas de sardinha e outros enlatados para mitigar-lhes a fome que os esperava no caminho da retirada.

Em suma, a maioria do povo apiaiano não mediu sacrifícios para, de uma forma ou de outra, colaborar com aquela memorável cruzada cívica. E muitos deixaram suas casas para que estas se transformassem em “hospitais de sangue” para agasalhar feridos que provinham da frente de combate, como aconteceu, por exemplo, com o prédio onde hoje está instalado o Artesanato de Apiaí. Ali morreram alguns valentes, cujos restos foram depositados no cemitério velho, de onde, mais tarde, foram transladados para o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, no parque do Ibirapuera, em São Paulo.

FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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 Palavras chave: 

HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - APIAÍ VALE DO RIBEIRA


ADENDO:

OS COMBATES EM RIBEIRA/SP NA REVOLUÇÃO DE 1932

Os combates de "Capella da Ribeira", atualmente município de Ribeira, ocorreram entre 17 a 31 de julho de 1932, sendo o último dia a data da queda daquela praça de guerra, por volta das 10 horas da manhã. 

A localidade, a exemplo de Itararé, já havia sido palco de terríveis combates. Em outubro de 1930, ali se confrontaram os rebeldes comandados por João Alberto Lins de Barros e os soldados da Força Pública de São Paulo comandados pelo tenente-coronel Pedro de Moraes Pinto, este que em julho de 1932 foi comandante da praça de Itararé.

Em 10 de julho de 1932, "Capella da Ribeira" começou a ser guarnecida por uma Cia do 9º B.C. da Força Pública, de efetivo reduzido, dividida em quatro pelotões e sob o comando do 1º tenente Benedicto da Silva Campos. Por volta do dia 17 de julho, a posição recebeu como esforço um esquadrão de cavalaria desmontado da Força Publica sob comando do capitão José de Oliveira França.

Também no dia 17, o tenente-coronel Azarias Silva (1884-1970), então comandante do Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo, assumiu o comando daquela frente de combate. Montando o seu Posto de Comando a 2 quilômetros das trincheiras. Lá o coronel comandou cerca de 300 homens, o equivalente a uma companhia, com 200 combatentes concentrados somente em Ribeira.

Faziam frente às unidades da Força Pública do Paraná e provisórios, as quais compunham o Destacamento do coronel Airton Plaisant. Nos primeiros dias de combate, as forças do cel. Plaisant eram cerca de 100 homens, porém, ao longo de duas semanas esse número aumentou em 10 vezes.

Em "Capella da Ribeira" os combates foram diários, onde o inimigo visava principalmente a ponte limítrofe entre os Estados do Paraná e São Paulo. 

A exemplo da defesa paulista no Túnel da Mantiqueira, Ribeira possuía grande vantagem do terreno: trincheiras distribuídas de forma inteligente por 15 km ao longo da fronteira, bem fortificadas e localizadas em encostas ou posições superiores nos morros que margeiam o Rio Ribeira; terreno ligeiramente mais elevado do que o do lado paranaense e ainda com a proteção natural de um rio de difícil travessia. 

O valor tático de Ribeira era enorme. Caso preservada a posição, e tivesse sido a tempo reforçado o destacamento atuante em Apiaí e Ribeirão Branco, seria possível atacar o flanco direito das forças ditatoriais, na altura de Faxina. Assim seria possível cortar a retaguarda do inimigo e obrigá-lo a refluir para a fronteira com o Paraná, de modo a retomar as posições perdidas em Itararé. Essa manobra era tão importante que no mês de agosto os paulistas tentariam sucessivas ofensivas nesse sentido, inclusive pelo flanco esquerdo ditatorial, a partir de Caputera (localidade situada 40 km ao norte de Itapeva), mas todas foram frustradas.

Foi somente em 31 de julho, justamente a data da queda de Ribeira, que o Destacamento do major Luiz Tenório de Brito chegou na região (o atraso se deu por conta do difícil acesso e das chuvas torrenciais ocorridas na véspera). A tropa foi enviada como reforço, com o fito de ocupar Apiaí e atacar Ribeirão Branco, e conter o avanço do destacamento Boanerges a oeste. Porém, este chegou primeiro a região e as tropas do major Tenório de Brito ainda foram surpreendidas pelo avanço ao sul das tropas de Plaisant que já haviam tomado Ribeira e rumavam na mesma data para cercar Apiaí, fazendo ligação com o destacamento Boanerges, numa atuação coordenada. Naquela altura, Ribeirão Branco já estava ocupado e Apiaí completamente cercada pelos dois destacamentos governistas. Eram mais de 3.000 soldados governistas: as tropas do coronel Airton Plaisant (polícia paranaense e provisórios) somadas às do coronel Boanerges (13º R.I., 7º R.I., 13º B.C., 5º R.A.M., Esquadrão 5º C.D. e Brigada Militar gaucha), contra apenas 600 soldados paulistas, na maioria voluntários sem efetivo adestramento militar. Cercados em Apiaí, os paulistas foram intimados a rendição, porém, apesar disso, conseguiram a muito custo escapar em marcha a pé, rumando pela mata para Xiririca (atual Eldorado-SP) via Iporanga, sob implacável perseguição da cavalaria paranaense.

Alguns relatos, por aqueles que atuaram diretamente nos combates, dão noção de como foram aqueles dias em Ribeira:

“NOTICIAS DO CORONEL AZARIAS – O QUE OCCORREU NA RIBEIRA DO DIA 18 AO DIA 26 DE JULHO ULTIMO

Do coronel Azarias Silva, commandante das tropas em operações na frente de Ribeira, recebemos os seguintes communicados:

‘Dia 18 – A’s 12 horas, transpuzeram a ponte São Paulo-Paraná dois reconhecimentos de officiaes, dirigindo-se ao encontro do adversário em território paranaense, encontrando-o no sitio denominado “Pinhalzinho”. Cahindo de surpresa sobre o adversario em descanço, e sem segurança, dispersaram-no após ligeira resistência, aponderando-se de 15 cavallos arreiados e aprisionando um soldado. Tivemos apenas um soldado extraviado.

Dia 19 – Cerca de 200 adversarios inquietaram nossas tropas, das 13 ás 13 1|2 horas, com tiroteio ininterrupto de metralhadoras. Foram repellidos sem nada conseguir. Cerca de 40 praças adversárias e um official feridos foram transportados para a retaguarda de suas linhas, conforme pudemos observar de nossas posições.

Dia 20 – Um reconhecimento mandado para o local onde se feriu o combate de 18, encontrou copioso material bellico, inclusive metralhadoras, fuzis metralhadoras, fuzis Mauser, mosquetões, etc, além de 6.600 cartuchos Mauser, abandonados pelo adversário que recuou. Sepultamos em Ribeira o cadáver de um soldado adversário alli encontrado, com as honras fúnebres pragmática.

Dia 21 – Este commando resolveu transferir o seu P.C. que estava a 2 1|2 kilometros á retaguarda, para junto das linhas em abrigo subterrâneo, afim de estar em contacto directo com as tropas entrincheiradas.

Dia 22 – A’s 16 horas e 45 minutos de hoje, o adversário desencadeou formidável ataque ás nossas posições utilizando canhão, innumeras metralhadoras e fuzis metralhadores. Apesar de tudo, foram repellidos com a mesma energia, nada conseguindo. Conservamos integralmente as nossas posições. Não houve perdas de nossa parte.

Dia 23 – O adversário atacou hoje as nossas linhas das 11 horas ás 11,40 e reiniciou o ataque ás 12 horas até ás 14 horas e meia. As nossas tropas sempre firmes e enthusiasmadas. A’s 17 horas e 25 minutos nova tentativa do adversário para se apossar da ponte S. Paulo- Paraná, sem nada conseguir. Retirou-se ás 18 horas e 45 minutos.

Dia 24 – A’s 2 horas e meia da madrugada de hoje, o adversário atacou violentamente com fuzilaria e metralhadora em toda a nossa frente de combate. A’s 3 horas e 50 minutos cessou o ataque. Não tivemos baixa nem cedemos um palmo do terreno. Ribeira continua intransponível.

Dia 25 – A’s 22 horas e 45 minutos o adversário atacou fortemente as nossas posições, suspendendo ás 23 horas e 35 minutos. Mais uma vez falhou o golpe. Estamos firmes.

Dia 26 – A’ 4 hora da madrugada o inimigo iniciou cerrada fuzilaria ás nossas posições, prolongando-se até 1 hora e cincoenta; ás duas horas reiniciou o fogo que suspendeu vinte minutos depois. Não correspondemos a esse tiroteio do adversário com o fito de o desmoralizar. A’s 6 horas e cincoenta minutos, uma centena de adversários descendo a encosta do monte “Corumbé”, atacou as nossas fortificações próximas á ponte São Paulo-Paraná sendo vigorosamente repellida, retirando-se em debandada, apesar de apoiada por metralhadoras. Falhou mais essa tentativa para a posse da referida ponte e tomada de Ribeira, que só entregaremos quando for detonado o ultimo cartucho. Ribeira, 27|7|932.” 

De: A Gazeta, 16 de agosto de 1932, página 4.

“NA ZONA DA RIBEIRA SÃO BATIDAS AS TROPAS DA DITADURA.

O comando da Força Pública recebeu ontem o seguinte telegrama:

‘Capela Ribeira 20-7-1932 – Comandante Alfieri, Quartel da Luz, São Paulo. – Estou Ribeira assumi comando tropa. Moral elevada. Situação boa. Ontem 260 adversarios aproximadamente inquietaram as nossas tropas das 13 ás 18 horas e meia. Foram repelidos. Nada conseguiram. Tivemos um ferido no pulso. Adversarios cerca 40 praças e um oficial ferido que transportaram para retaguarda suas linhas, em caminhão. Informação de um aprisionado, efetivo adversários 900 homens policia Paraná,  Exército, cavalaria, infantaria, metralhadora e duas peças montanha. Nada nos falta, homens, armamento, viveres, sobretudo formidável entusiasmo, que é um dos fatores da vitoria. Pretorianos do Catête murchos e desiludidos. População civil aconselhada retirou-se Apiai. Viva São Paulo! Viva o Brasil! Saudações. Comandante Azarias.’ Saudações – Capitão Heliodoro Tenorio, chefe do Gabinete.

(...)

Mais tarde, o sr. comandante Alfieri recebeu o seguinte telegrama, também do comandante Azarias:

‘Comandante Alfieri – Quartel General da Luz – S. Paulo – Ribeira n. 15 – Urgente. – Mandei reconhecer o local em território paranaense, ocupado pelos adversários, nos combates travados ontem. Os adversários abandonaram as posições, deixando grande numero de cadáveres, inclusive 2 oficias, duas metralhadoras pesadas, 2 fusis metralhadoras, 10 fusis Mauser, 9 mosquetões Mauser, 5 caixa de acessórios de metralhadoras, canos sobresalentes, 12 cofres com carregadores, 10 mochilas, bolsas e outros materiais bélicos, além de 17 cunhetes de munições. Quando nosso reconhecimento procurava recolher os caraveres afim de dar-lhes sepultura com as devidas honras, foi impedido de prosseguir nesse dever de humanidade por ter sido hostilizado pelo adversário, todavia, conseguiu transportar o cadáver de um soldado em poder do qual foi encontrado o seguinte endereço: Ester Costa, rua Dr. Melo, 39, Antonina. – Saudações. Comandante Azarias.” 

De: Correio de S. Paulo, 21 de julho de 1932, página 1.

Contudo, a frente de Ribeirão caiu às 10 horas manhã de 31 de julho de 1932, após traição sorrateira encabeçada pelos irmãos Agostinho e Antônio Navarro Munhoz, então tenentes do Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo, que lideraram um grupo de 20 amotinados, composto por praças e oficiais. No dia anterior, 30 de julho, abandonaram suas posições, atravessaram o rio Ribeira rumo a margem paranaense e se entregaram às forças governistas, manifestando o desejo de desertar e de ainda colaborar com o inimigo. 

Com a ajuda dos irmãos Navarro, entre os dias 30 e 31 de julho, os governistas se dividiram em dois grupos e atravessaram o rio Ribeira em dois pontos estratégicos (pontos cegos para as guarnições paulistas, e previamente indicadas pelos oficiais desertores), a alguns quilômetros rio acima e rio abaixo a partir da ponte fronteiriça, realizando a travessia por meio de cordas e canoas improvisadas. Uma vez transposto o rio, rumaram cerca de 6 quilômetros para a retaguarda paulista em movimento de pinça, até o ponto de encontro combinado entre os dois grupos de governistas. Uma vez cortada a retaguarda paulista, garantiram o cerco e, por fim, intimaram o comandante Azarias Silva a se render. 

Assim, após 18 dias de luta renhida e encarniçada em terreno acidentado contra as tropas governistas compostas por um destacamento da polícia paranaense comandado pelo cel. Ayrton Plaisant cujo efetivo chegou a cerca de 1.500 homens, o tte-cel Azarias Silva foi cercado e feito prisioneiro junto do capitão Benedicto da Silva Campos, do capitão José de Oliveira França e do 2º tenente Liberato Vianna, além de 56 praças. O seu genro, Iracy Teixeira, que na ocasião estava integrado ao grupo, também foi preso. Porém, houve alguma resistência e uma tropa remanescente conseguiu fugir rumo a Apiaí-SP.

Esse foi o noticiado pela imprensa paranaense logo após a queda de Ribeira:

“COMMUNICADO DO CEL PLAISANT – OS PRESOS VINDOS PARA CURITIBA

O sr. Interventor Federal recebeu hontem o seguinte telegramma:

‘Capela Ribeira, 31 – 15,55H – Remeti essa Capital seguintes Oficiais Força Pública aprisionado Ribeira: Tenente Coronel Azarias Silva, cap. José Oliveira França, capitão Benedito Silva Campos, 2os tenentes Liberato Viana, Waldemar S. Braga, João Oliveira Melo e Antonio Navarro Munhoz [este] que se apresentou expontaneamente hontem mais vinte e poucas praças. Peço seja o Tenente Navarro e as praças acima referidas numericamente tratados não como prisioneiros. Eles manifestaram desejo incorporarem-se minha força. (a) Cel. Plaisant”.

De: O Dia, 2 de agosto de 1932, página 1.

É isso mesmo! O 2º tenente Antônio Navarro Munhoz, junto de seu irmão, Agostinho Navarro Munhoz, liderando cerca de duas dezenas de praças e oficiais – apresentadas em lista separada anexa àquele telegrama – aderiram ao Destacamento Plaisant e passaram a combater os próprios paulistas (!!!) na frente sul, em um grande ato de desonra contra a terra bandeirante e a própria corporação da qual faziam parte. Infelizmente, o episódio lamentável de traição em Ribeira não foi o único no conflito.

Em São Paulo, já em liberdade, o capitão da Força Pública Paulista, José Oliveira França, um dos prisioneiros de Ribeira, lamentou o fato ocorrido em Ribeira:

“TRAHIRAM OS COMPANHEIROS! 

S. Paulo, 24 (União) – Fallando á imprensa, o capitão José França, da Força Pública Paulista, declarou que as forças governistas apoderaram-se da Capella da Ribeira, logo no inicio do movimento revolucionário, porque houve trahição de vários officiaes rebeldes [paulistas].” 

De: Correio do Paraná, 24 de outubro de 1932, página 1.

Conforme declarou o então Comandante Geral da Força Pública de São Paulo, o coronel Herculano, sobre a queda de Ribeira: “(...) Não fosse um dos vários atos individuais que macularam a nobreza da causa de São Paulo e a dignidade da farda, dificilmente aquele passo seria transposto.” — A Revolução Constitucionalista (1932), H. C. Silva, página 158.

Segundo o coronel Azarias Silva, em declaração dada à imprensa em 2 de novembro de 1932:

“(...) Ribeira caiu com 3 officiaes e 56 praças apenas. Não passei por Xiririca, da qual estive a 200 kilometros de distancia. O effectivo da minha tropa nunca excedeu de 300 homens, dos quaes 200 na praça de Ribeira. E’ preciso não confundir a minha acção com a de quem se retirou com 900 homens para Xiririca, perseguido apenas por 40 federaes! [o coronel aqui faz referência ao Destacamento do major Luiz Tenório de Brito que precisou recuar de Apiaí para Xiririca, para evitar o cerco da unidade, no início de agosto de 1932]

(...)

Á Ribeira não chegou uma única peça de artilharia, apesar de meu ardente desejo de a ter.

(...)

Sempre escoltado, iniciei a minha ‘‘via crucis’’ deixando Ribeira com destino a Curityba, Paranaguá e Rio de Janeiro (Quartel General do Exército, 1ª Região Militar, Ilha Grande e Casa de Correcção).” 

De: A Noite, 2 de novembro de 1932, página 1.

O tte-cel. Azarias deixou a Casa de Correção do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 1932, chegando a São Paulo somente em 3 de novembro e nesta mesma data pediu a sua reforma da Força Pública de São Paulo, por discordar dos termos da rendição bem como a Intervenção da ditadura no Estado e na sua própria corporação. Na reserva, recebeu a patente de coronel.

Azarias Silva, em sua carta sobre as razões de sua reforma da Força Pública — peça que precisou distribuir por conta própria aos amigos e demais pessoas, pois foi imposta censura à imprensa paulista pelo então Interventor Valdomiro Lima — atribuiu a queda de Ribeira à traição dos irmãos Navarro, embora Ribeira já estivesse condenada a cair nas mãos governistas, uma vez que no final de julho as tropas do Destacamento do tte-cel Boanerges Lopes de Souza já haviam cercado Apiaí e obrigado o recuo do Destacamento do major Luís Tenório de Brito e, assim, fatalmente cortariam a retaguarda das tropas do coronel Azarias Silva e o deixaria cercado, na hipótese dos paulistas ainda resistirem naquela posição à princípio de agosto. A referida carta está disponível entre as páginas 266 a 268 do livro “A Nossa Guerra” (1933) de Alfredo Ellis Jr.


FONTE TEXTO E FOTOS:

FACEBOOK GUARDIÕES DE 32


Para compreender os eventos de 1932 é necessário retroceder alguns anos e entender como era a política brasileira nas décadas anteriores. Após a instauração da República, em 1889, o poder foi exercido basicamente pelas oligarquias paulista, representada pelo Partido Republicano Paulista (PRP) e mineira, representada pelo Partido Republicano Mineiro (PRM), na chamada “república do café com leite”. Já nos primeiros anos da década de 1920 esse modelo passou a ser contestado por setores sociais de pouca visibilidade ou alijados do poder, como podemos constatar pela Revolução de 1924, pelos movimentos tenentistas, pela Coluna Prestes e pela criação do Partido Democrático (PD) em 1926, como dissidência do PRP. O ano de 1929 marcou o rompimento entre as alianças paulista e mineira. Os paulistas indicaram Júlio Prestes como candidato à presidência da República e em contrapartida, os mineiros apoiaram a candidatura oposicionista do gaúcho Getúlio Vargas. Um ano depois das eleições, com a vitória de Júlio Prestes, desencadeou-se a Revolução de 1930. Este foi um movimento armado, iniciado em 3 de outubro e liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou na deposição do presidente da república Washington Luís em 24 de outubro, impedindo a posse do presidente eleito. Getúlio Vargas assumiu então a chefia do governo provisório em 3 de novembro, data que marcou o fim da chamada República Velha. A luta armada dos constitucionalistas que a princípio contava com o apoio de lideranças do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso acabou restringindo-se ao estado de São Paulo com algumas poucas alianças em regiões isoladas. Devido à falta de apoio dos estados vizinhos, o despreparo dos voluntários e a insuficiência de armas, os paulistas não tiveram condições de manter a revolução por muito tempo. A superioridade das tropas federais prevaleceu e em outubro de 1932 as frentes constitucionalistas assinaram a rendição. Nos anos seguintes houve um processo contínuo de construção da memória do movimento constitucionalista, tornando-o símbolo da identidade paulista. Diversas famílias de combatentes e veteranos mantiveram registros que continuam sob sua guarda. Porém, grande parte foi doada e hoje pertencem aos acervos de museus do estado de São Paulo e acessíveis para o público em geral. São cartas, fotos, diários, manuscritos, objetos de combate, indumentária, dentre outros que possibilitam o amplo acesso a esses elementos que compõem o imaginário social acerca do conflito ,e essa semana Apiaí teve a oportunidade de poder conhecer um pouco desses registros e memórias com a exposição do Museu de 32, no C.E.A , com narrativas dos Apiaienses João Prestes e senhor Janguito.


FONTE TEXTO E FOTOS:

FACEBOOK CASA DO ARTESÃO DE APIAÍ