A AGROPECUÁRIA

 A tradição oral revela coisa aliás muito lógica: desde os princípios dos trabalhos de garimpagem até que esta fracassasse com o exaurimento dos depósitos do ouro aluvional em fins do século XVIII, a agricultura e a pecuária estiveram limitadas em Apiahy, ao cultivo da terra e à manutenção de reduzidos rebanhos de gado vacum, cavalar, muar e suíno para efeitos de sobrevivência do minerador. O milho, o feijão, o arroz, a batata e a mandioca eram consumidos aqui mesmo. E não existem, ou pelo menos não foram encontrados dados estatísticos correspondentes àqueles tempos; sabe-se, também, que o fumo era cultivado no fundo de quintais para aqueles mesmos fins. A erva mate, entretanto, era nativa em toda a região. A cana de açúcar, trazida de fora, se deu muito bem no território de Apiahy, e vicejava muito bem tanto nas terras de clima mais quente, como Capela da Ribeira e Itaóca, como também no planalto; dela se extraia a rapadura, substituta do açúcar e a aguardente, que por interessar ao monopólio do colonizador lusitano, somente podia ser vendida a varejo ou no atacado nos chamados “estancos”, ou armazéns próprios administrados pela Coroa Portuguesa por intermédio de seus prepostos locais.

A respeito da produção da aguardente vulgarmente chamada “cachaça”,“pinga”, etc., existem muitas notícias anotadas nas atas da Câmara, lavradas naqueles tempos.

No ano de 1873 surgem as primeiras notícias, por assim dizer oficiais, a respeito da qualidade dos produtos agropecuários produzidos em Apiahy, anotados no “Almanaque para o ano de 1873”, feito publicar pela Imprensa Oficial do Estado. O povoado de mineradores já se transformara em um razoável núcleo de lavradores e de criadores do gado suíno.

Os gêneros cultivados e já numa proporção que permitia sua exportação para outras regiões, eram, com preponderância, o fumo, a erva mate, o algodão, a cana de que se tirava a rapadura, e o milho. A criação e engorda de suínos já havia assumido uma proporção que ensejava a exportação do animal em pé e do seu toucinho, tal como acontecia com a produção agrícola. Aliás, a criação e engorda de suínos ocorreu num sensível crescendo ano a ano em Apiahy, como se perceberá nas linhas seguintes, até os anos de 1940/1950, quanto a doença denominada vulgarmente de “peste suína” dizimou o rebanho respectivo, com reflexos calamitosos para a economia local.

A criação e engorda de suínos era de tal porte, que ensejou a instalação de duas fábricas de banha na cidade, que exportavam o produto acondicionado em latas para as mais diversas regiões de São Paulo e do Rio de Janeiro com preferência. A primeira, no bairro Pinheiros, por iniciativa do engenheiro Alberto Arduini, por volta de 1.934. Ele veio para Apiaí com o propósito de explorar o minério de chumbo com vieiros existentes naquele bairro e mudou suas intenções, porque a jazida mineral era de pequeno vulto, enquanto a manipulação dos sub-produtos de suínos era compensadora. A segunda, de maior capacidade produtiva, foi instalada no “Fundão”, onde hoje está a Vila Tapera, por Alcides Fadiga Costa, no curso da década de quarenta, tinha a marca registrada “Banha Apiaí”, e se manteve ativa até que adveio aquele insucesso insuperável na criação de suínos. Desativada a fábrica de “Banha Apiaí, suas instalações foram transferidas para a “Fábrica de Produtos Genser S\A”, que no local preparou e enlatou toneladas de palmito extraído das matas de Iporanga e Apiaí, sucedendo-a a “Serraria Apiaí Ltda.”, que beneficiou nossa madeira nativa. O trecho outrora ocupado por essa firma hoje abriga a secção residencial do complexo da Camargo Corrêa Industrial S/A. produtora do “Cimento Portland Eldorado”.

Alfredo Moreira Pinto, o pesquisador já mencionado com reiteração, quando em 1894 encontrou aqueles 5.366 habitantes em Apiahy, emendou afirmando que todos eles se dedicavam a lavoura de cana de açúcar, mate, fumo e cereais, cuidando, também, da criação de suínos.

Já o “Anuário de São Paulo”, feito publicar em 1922 por Roberto Cappi, quando a Capela da Ribeira de há muito havia se desmembrado de Apiaí, indica como a maior cultura daquela época, a cana de açúcar, seguida pelo feijão, milho, mandioca, marmelo e uva. Informou, ainda, que se criavam, engordavam e exportavam, em média, 50.000 suínos por ano. Convém esclarecer que o escoamento de toda essa produção, já estava facilitado pela abertura da rodovia entre Apiaí e Itapeva, e por trilhas já melhoradas de Apiaí para Itararé e Itapetininga. De muitos criadores de Apiaí ouvimos relatos de que uma “porcada”, reunindo até cem cabeças era conduzida a pé, de Apiaí a Itararé ou Itapetininga, o que demandava muitos dias de viagem paciente e vagarosa para evitar uma natural quebra no peso dos animais. O toucinho, por sua vez, cuidadosamente salgado, era conduzido em mantas, nas bruacas dos animais dos tropeiros, até seu destino, que via de regra era Itapetininga, onde era transformado em banha, então indispensável à toda cozinha, pois os óleos vegetais ainda não existiam e só viriam ao mercado muitos e muitos anos depois.

A carne dos suínos, depois de separado o que interessava à banha, era transformada em lingüiça ou salgada, e assim também era exportada para lugares mais distantes, principalmente São Paulo, com grande aceitação naquela metrópole.

Marcello Pizza, como Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, em seu trabalho “Os Municípios do Estado de São Paulo”, publicado em 1924, a que já nos referimos, coligiu os seguintes dados sobre a produção agropecuária de Apiaí no curso do período 1923/24: 3.240 sacas de arroz, 3.400 de feijão, 180.000 de milho, cana de açúcar beneficiada em 96 engenhos, 1300 arrobas de fumo, 1000 arrobas de algodão, 4.756 bovinos com 1991 vacas de criar, 23.167 suínos, 1067 caprinos, 871 ovinos, 1636 muares, 2608 eqüinos, ponderando que a exportação de suínos correspondia a 15.000 por ano. Anotou 10 fábricas de farinha de milho, 305 propriedades agrícolas e pastoris.

No ano de 1929, em seu “Dicionário dos Municípios de São Paulo”, Affonso A. de Freitas, a respeito da produção agropecuária de Apiaí indica 2.500 hectolitros de arroz, 8.000 de feijão, 180.000 de milho, cana de açúcar alimentando aqueles já referidos 96 engenhos para produzir rapadura e aguardente, e aludindo à pecuária, aponta a existência de 4.756 bovinos, 2.698 eqüinos, 1.636 muares, 8.781 ovinos, 1.067 caprinos e 23.167 suínos.

O que a criação, engorda e exportação de suínos representava para Apiaí até aquele período de 1940/1950, é o que passou a representar para a economia local o cultivo e exportação de tomate a partir de então, observada a devida proporção entre criadores de suínos e os plantadores de tomate. Uma coisa, entretanto, é patente, clara e evidente: a chamada “safra de porcos” que significava o plantio intensivo de milho para a conseqüente engorda do porco, fixava o rurícola à terra de onde tirava tudo o mais que se apresentasse necessário ao seu sustento, como batata, mandioca, café, arroz, feijão, e onde desenvolvia a criação de animais e aves domésticos para seu consumo. Difícil era encontrar aquele que não tirasse o leite de sua própria vaca e que não possuísse uma parelha de burros para tocar seu arado.

A “peste suína”, dizimando o rebanho respectivo, provocou um relativo colapso na zona rural, justamente nas vésperas do período em que o plantio de tomate se iniciou no Município de Apiaí, ou seja, em 1949, por iniciativa do japonês Shigueyuki Tsutia.

A cultura do tomate a contar de então, ano a ano, foi crescendo e o nosso rurícola tradicional, foi esquecendo as tradicionais lavouras de milho, feijão, arroz, cana de açúcar, etc., para se entregar, na sua grande maioria, ao plantio intensivo do tomate, que hoje em dias de 1993, caracteriza a monocultura do município. O plantio do tomate, observando-se o assunto em sua crucial profundidade, empobreceu muitos e enriqueceu poucos, arrastando atrás de si sérios problemas sociais para o Município. Muitos daqueles ou descendentes daqueles que antes ocupavam e usufruíam da terra em termos de minifúndio, e nela tinham a garantia de sua subsistência ainda que modestamente, entraram na custosa e arriscada lavoura do tomate e saíram mal sucedidos; acabaram perdendo seu minifúndio e passaram a viver como nômades, servindo aos maiores plantadores como meeiros ou formadores da lavoura tomateira, residindo em humildes casinholas vedadas e cobertas com o material brilhante mas ilusório chamado “parmalat” (papel de alumínio), símbolo do desconforto e do desajuste social. Aconteceu, então, como tinha que acontecer, o êxodo rural, conforme apontamos numericamente no adendo “População”. Perdida a terra primitiva, por venda, abandono ou por força de execução por dívida, ou mesmo pelo desânimo, o rurícola veio para a cidade ou para os bairros sedes para morar em favelas ou coisa parecida, acarretando, para si e para a administração pública toda a sorte de problema social, como aqueles pertinentes ao saneamento básico, à educação, ao transporte, à alimentação necessária e saudável.

Atrás de tudo veio o pior que foi o aumento da criminalidade e a disseminação da prostituição.

Essa transformação acontecida na produção agropecuária do Município de Apiaí, que corrobora perfeitamente as conseqüências que apontamos acima, está demonstrada pelos elementos que nos foram fornecidos, por estimativa e com grande boa vontade e disposição pelo Dr. Luiz Fernando Arruda Vasconcellos, DD. Secretário Municipal de Agropecuária:

AGRICULTURA

Produto Safra Pés Hectares

Tomate 92/93 15.000.000 900,00

Pimentão 92/93 8.000.000

Feijão Vagem 92/93 12.000.000

Arroz 91/92 - 60,00

Feijão 91/92 - 80,00

Milho 91/92 - 120,00

PECUÁRIA

BovinosEqüinos Suínos Ovinos Caprinos

2.175 3.500 4.300 230 520

Propriedades rurais existentes..........................359

Propriedades com bovinos.................................99

A respeito do trabalho nas lavouras de pimentão e feijão vagem ficam valendo as mesmas considerações que fizemos com respeito à do tomate, uma vez que aquelas variedades, resultam diretamente da lavoura do tomate, porque plantadas em sua soqueira, ou seja, na terra onde por primeiro foi plantado o tomate.

O autor também cultivou tomate por quatro anos agrícolas consecutivos; foi bem sucedido nos três primeiros anos; animou-se e no terceiro ano dobrou a quantidade de pés, passando de 20.000 para 40.000 pés, isto em 1967. Contraiu pequeno empréstimo bancário junto ao Banco do Brasil S\A (agência de Itararé, pois em Apiaí não havia similar); comprou um trator, um caminhão usado e outras “cositas mas”, para pagar “no fim da safra”. Mas naquele ano o fracasso foi total para todos. O produto não encontrou preço nem para ser vendido às fábricas de massa. “Adeus caminhão, trator, etc. e tal”. Quatro anos para liquidar o financiamento, ainda que não houvesse correção monetária, e se bem que os juros bancários correspondessem a 4% ao ano!

Aqui em Apiaí o cultivador de tomate é chamado de “tomateiro”, embora o correto seja tomaticultor.

Foi com aquela triste experiência que nos veio a inspiração para redigir o poema

O “TOMATEIRO” FRUSTRADO

Nasci no mato, filho de matutos,

a enxada de meu pai cavava a terra,

dela tirando os mais variados frutos,

todo alimento que a precisão cabocla encerra.

Cresci, passei a conviver com os mais astutos

e deles ouvi: “no milho e no feijão você emperra”...

Evolua, plante tomate e os rendimentos brutos

hão de levar-te, em pouco, ao ápice da serra.

Ambicioso, pensando em rápida riqueza,

entrei naquela safra sem qualquer debate;

gastei tudo que tinha e no final perdi o combate.

Desiludido, agora, afirmo com tristeza:

nem que a fome prometa que me mate,

“Juro por Deus” - nunca mais planto tomate.

(Apiaí, 15.04.1985)

FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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 Palavras chave: 

HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - APIAÍ VALE DO RIBEIRA