AS TAIPAS DE APIAÍ


  As nossas origens, a contar de “Santo Antonio das Minas de Apiahy”, estão vinculadas aos princípios do século XVII, com os aglomerados esparsos de garimpeiros que se assentaram nesta região, no curso da centúria que teve início em 1.600. Como os primeiros que aqui chegaram não tinham o ânimo de fixaremse, pois estavam à cata de riqueza aurífera de aluvião que poderia exaurir-se a qualquer momento, edificavam eles suas toscas moradas com varas, usando como cobertura a guaricanga ou sapé, a mais econômica das construções.

Mas os vieiros não se esgotaram num curto prazo, e na medida em que progredia a mineração, acorria para estas bandas um número maior e mais homogêneo de aventureiros, já com outro ânimo, trazendo consigo muitos escravos, suas famílias, animais de costeio, ferramentas e equipamentos para uma exploração mais racional e intensiva daquele cobiçado mineral. Esse fato aconteceu com proeminência no decorrer da primeira metade do século XVIII. 

Foto: "Sinhoca" José de Aguiar, Livro Santo Antonio das Minas de Apiahy

  Foi justamente nessa “corrida” que aqui despontou Francisco Xavier da Rocha com seus escravos, conforme nos conta a tradição oral. Concomitantemente melhorou a qualidade das construções, e sua quantidade também aumentou, caracterizando os povoados, sendo primitivo e principal o do “Pião” onde se desenvolveu na sua primeira fase, “Santo Antonio das Minas de Apiahy”. Esse lugar é hoje chamado de “Vila Velha do Pião”. O povoado do “Pião” tinha como núcleos satélites o “Taquarussú”, “Palmital”, “Pinheiros”, “Capoeiras”, “Água Limpa”, “Rocinha” e o “Paiolinho”, sendo que este, mais tarde viria superar a todos os demais, tornando-se a vila de “Santo Antonio das Minas de Apiahy”, atualmente a cidade de Apiaí.



  No longo período de evolução, desde o “Pião” até o “Paiolinho”, predominavam na região dois tipos de construção: a de lascas do tronco dos pinheiros que eram abundantes, e a de pau-a-pique, com suas paredes internas e externas de ripas lascadas de taquara ou jiçara (caule do palmiteiro), entrecruzadas e amarradas com cipó e rejuntadas com barro. Ainda hoje, quando se derruba ou se reforma uma das casas mais antigas da cidade, no trecho da rua 15 de Novembro ( antiga Coronel Barbosa ), depara-se com vestígios ou restos daquelas edificações de pau-a-pique que abrigaram nossos antepassados.

  As construções de taipas, ou seja, de paredes de barro socado entre dois tabuões formando um bloco uniforme e compacto, por serem as mais custosas e trabalhosas para a época distante, foram levantadas -e muitas-, tanto na “Vila Velha do Pião” como no “Paiolinho”, mas nenhuma delas resistiu ao tempo ou à demolição propositada. Começaram a ser levantadas quando a feição da cidade de Apiaí estava a indicar sua perenidade, principalmente com a emancipação político-administrativa acontecida a 14 de Agosto de 1771. Foram levantadas, primeiramente, pelo poder público então constituído e que se resumia na Câmara Municipal com seu Presidente e cinco chamados Oficiais, que eram os Vereadores. E foram também construídas pela Paróquia de Santo Antonio e pelos proprietários rurais e urbanos dotados de melhores recursos financeiros. Em todas essas construções foi utilizada a mão de obra escrava, eficiente e obviamente quase que gratuita.

  A Câmara Municipal fez construir, por exemplo, a “Casa do Conselho”, sua sede administrativa, onde funcionavam, também, o “Registro do Ouro” e o “Juizado Municipal”. Esse prédio, que deveria ser majestoso e imponente para seu tempo foi edificado no lugar onde hoje está o núcleo habitacional “Nosso Teto” e os restos do seu alicerce ainda poderiam ser vistos na década de quarenta. A mesma Câmara Municipal fez levantar outros prédios de taipa, como o presídio chamado “Calabouço” destinado a receber escravos foragidos ou apenados e que se localizava no “Palmital”, outro presídio cujos restos nós conhecemos e que se destinava aos infratores brancos e escravos libertos e que se localizava no chamado “Alto da Cadeia”.

  A Paróquia de Santo Antonio de Apiaí, por sua vez, fez edificar lá no “Pião”, de taipa, a primeira Igreja Matriz, e depois, no “Paiolinho”, a segunda, num estilo original do Apiaí de antanho, da qual existe um resquício, que é precisamente o muro que protege a atual Casa Paroquial, e que está sendo preservado graças às atenções do atual pároco, Monsenhor Oscar dos Santos Júnior. Convém lembrar que a Igreja Matriz da provecta Ilha Bela, no litoral norte de nosso Estado, por dentro e por fora, em todos os seus detalhes, inclusive altares, é o retrato fiel do que foi a primitiva Matriz de Santo Antonio de Apiahy.

  Das construções de taipa levantadas por particulares, pelo menos duas se destacaram e puderam ser conhecidas pelas gerações mais novas. Uma, constituiuse no casarão que existiu no imóvel Taquaruçú”, próximo da cidade, tão notória, que ensejou o nome do próprio imóvel - “Casa de Taipa”-. Fora levantada no distante 1856 por Apolinário José Mariano, abastado lavrador e minerador, que utilizava a parte superior da vivenda para residência de sua família e a inferior como abrigo de escravos.

  Outra construção memorável foi o apelidado “Castelo”, um casarão de taipa, que até o ano de 1938 existiu no alto da colina em que, naquele ano, se levantaram os alicerces do nosocômio que viria denominar-se “Hospital Dr. Adhemar Pereira de Barros”, em homenagem ao Governador do Estado de São Paulo que concedeu substancial verba para a execução da obra, colaborando com a nossa comunidade que a idealizou e a realizou, também com seus donativos, coletados no curso de uma bem sucedida campanha de ajuda financeira. Nasceu o hospital e morreu o “Castelo”, demolido, segundo consta, para proporcionar melhor visual ao empreendimento novo. O terreno onde estava erigido o “Castelo”, adquiriu o nome deste e com a área de 870 m2, fora doado pelo benemérito casal de Pedro Nolasco da Silva, “Nhô Vidóca”, em favor da Sociedade Beneficente de Apiaí, organizada justamente para levantar o hospital. Numa fotografia batida no ano de 1928, que alguns ainda possuem, retratando a primeira grande nevada que cobriu toda a cidade de branco, aparece nitidamente o “Castelo”. Contava com três janelões voltados na direção do povoado, com entrada lateral e cobertura de telhas goivas enegrecidas pelo tempo. Todo rebocado e caiado era uma construção imponente, com pé direito de cinco metros, destacando-se dentre as demais da cidade que mal preenchia trechos das ruas 15 de Novembro, 7 de Setembro, Padre Celso, 21 de Abril e Tenente Coronel Meira (antiga rua do Fundão). Esse casarão já existia seguramente no ano de 1861, uma vez que assim foi arrolado como bem de grande valor do acervo deixado pela veneranda Ana Martha Duarte, cujo inventário se processou pela comarca de Itapeva da Faxina, a cuja jurisdição pertencia o Termo de Apiahy. Nele -relata a tradição-, durante largos anos residiu o casal de Ana Martha Duarte com Lourenço Dias Baptista, ambos cidadãos beneméritos, cujos nomes estão estreitamente ligados à história de Apiaí, uma vez que chegaram a ser donos dos imóveis “Água Limpa” e “Paiolinho”, onde se dedicavam à mineração aurífera de aluvião juntamente com seus filhos e escravos. Doaram o “Paiolinho” à paróquia de Santo Antonio. O casarão de taipa com potreiro anexo, abrigava garimpeiros e tropeiros e aqueles que para cá vinham para tratar de negócios, pelo que também foi, pode-se dizer, uma das primeiras hospedarias da cidade. Até pouco tempo antes de ser demolido, o “Castelo” era ocupado, mediante concessão de seus proprietários, por uma senhora, também de nome Ana, que era conhecida como “Ana do Castelo”.

  No cemitério velho, onde hoje está o templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia, a “capelinha” e grande parte do muro do flanco direito, eram de taipa, que resistiram heróicamente à ação do tempo, cobertas de musgos e avencas, até que sobreveio sua desativação e demolição. Assim, as taipas de Apiaí desapareceram e levaram consigo muita coisa preciosa de nossa história e tradição.

FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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