APIAÍ E OS ESCRAVOS

Na sua evolução histórica que teve início lá bem longe, quando se começavam a contar os anos do século XVII, Apiaí recebeu permanentemente o concurso do trabalho do escravo negro para sobreviver, ou talvez para ter diasmelhores, às custas da mais ignominiosa mão de obra: o homem, a mulher, a criança, o jovem, e mesmo o ancião, labutando de sol a sol, sem ganhar nada mais que um rústico catre para dormitar por poucas horas, e uma ou duas rações de fubá para fortalecer seus músculos. A primeira notícia escrita que se tem da vida que transcorria no “Pião”, paragem em que se assentou “Santo Antonio das Minas de Apiahy” já se refere a escravos. Lá, foi batizado, no dia 02 de julho de 1.737, o criolinho Antonio, filho adotivo de uma escrava de Francisco Xavier da Rocha!
Noutros lugares do nosso imenso Brasil, o negro escravo seqüestrado de suas tribos africanas movimentava a lavoura, imprimindo produção aos engenhos dos “Sinhôs”. Aqui em Apiaí ele cavava a terra, abria valas e trincheiras, carregava pedras, movimentava bateias e bicas, catando ouro para seu patrões e donos, dos quais muitos enriqueceram. Quando o ciclo do ouro se findou por volta de 1.800, os escravos utilizados na garimpagem e nos desmontes, na sua maioria, foram vendidos por elevados preços ao senhores de fora como mercadoria de primeira qualidade, permanecendo por aqui os mais idosos, os mais fracos e doentes e os de pouca idade, cuidando dos engenhos de cana de açúcar dos quais existiam trinta e treis, conforme documentação da época.

No censo de 1.783, habitavam Apiaí 1.087 pessoas, sendo que a maioria - 827 - era constituída de escravos cativos e forros ou libertos. O Capitão Rafael de Oliveira Rosa possuía, então, 52 escravos, o Tenente Coronel Custodio Francisco Pereira, 34 escravos (dentre eles “João Congo” e “Joaquim Angola”), o Capitão Mor Mathias Leite Penteado, 69 escravos, na fábrica (engenho) do Coronel Joaquim Manoel de Castro 60 escravos, na de João Manoel de Carvalho, 45 escravos, e assim por diante.

Já no recenseamento de 1.793, havia em Apiaí, 1.189 pessoas, entre 598 escravos e 591 brancos. No ano de 1.797, com 1.199 habitantes em Apiaí, o Capitão Mor Mathias Leite Penteado contava com 95 escravos, o Tenente Coronel Custodio Francisco Pereira com 37 escravos, o fabricante de aguardente José de Lara Penteado com 35, o Guarda Mor José Veloso de Carvalho com 19 e o Capitão João
Manoel de Carvalho com 60! No ano de 1.809, período em que se acentuou a decadência da mineração, em Apiaí, encontravam-se 210 brancos, 128 pretos livres, 351 pretos cativos, 160 mulatos livres e 178 mulatos cativos. Assina o censo, o Capitão Raphael de Oliveira Rosa, que destacou dentre os recenseados o Vigário Generoso Alexandre Vieira, com 29 anos, o Padre Antonio José Penteado de
Carvalho, o Padre Bernardo de Moura Prado, o Sargento Mor José de Lara Penteado, juízes e encarregados civis 4, agricultores 110, mineiro proprietário 1, mineiros ocupados nas minas 4, negociantes 3, jornaleiros (trabalho por dia) 300, escravos 202, escravas 222, “vadios” 1 e “mendigos” 1.

Em 1.884, foi promulgada a Lei da Supressão do Tráfico de escravos. Em 1.885 promulgou-se a Lei do Ventre Livre, em 1.885 a Lei que emancipou ou libertou os escravos com mais de sessenta anos, e, finalmente, em 1.888 a Princesa Isabel promulgou a Lei Áurea, que extinguia a escravidão em todo o território brasileiro. Mas antes desses eventos históricos, o negro escravo era mercadoria de compra e venda, e muitos deles conseguiram sua alforria pagando ao seu dono o seu preço calculado em ouro. As cartas de alforria eram lançadas no livro do tabelionato local, exigência que completava sua validade. A seguir, algumas das muitas existentes.

ESCRITURA DE LIBERDADE QUE PASSA
LOURENÇO PEREIRA FREITAS A FLORENCIA.

“Digo eu Lourenço Pereira Freitas que é verdade que entre os mais bens que possuo assim uma escrava por nome Florência a qual forro pelo preço e quantia de trinta e duas oitavas de ouro e pelo bom serviço que me faz que fica forra de hoje para sempre e nem os meus herdeiros a poderão cativar porque dela recebi o seu valor que poderá gozar de sua liberdade de hoje por diante e rogo a justiça de Sua Magestade lhe de em tudo cumprimento e vigor. E por ser verdade de tudo passei a minha letra e sinal. Apiahy dezoito de janeiro de mil setecentos e noventa e nove. (a) Lourenço Pereira Freitas”.

TRASLADO DE UMA CARTA DE ALFORRIA

“Digo eu o Alferes Antonio de Oliveira Rosa que entre os mais bens que possuo bem assim uma mulata de nome Izabel com quatro crias, Alberto, Francisco, Anna e Josefa, cujos os forro de minha livre vontade sem constrangimento algum e assim a dita mulata poderá morar ou residir onde lhe parecer como senhora de si que fica sendo de hoje para todo o sempre e assim rogo as Justiças de Sua Alteza
Real favoreçam os ditos libertos. E por ser esta minha última vontade passo a presente carta de minha letra perante as testemunhas abaixo assinadas. Villa de Apiahy, dezesseis de agosto de mil oitocentos e tres. (a) Antonio de Oliveira Rosa.- Testemunhas Rafael de Oliveira Rosa- José de Oliveira Rosa”.

LANÇAMENTO DE UMA CARTA DE LIBERDADE

“Digo eu abaixo assinado como procurador de Agostinho Pires Correia residente em Portugal que entre os bens que me couberam em partilha ao meu constituinte por falecimento de seu pai Narciso Pires Correia há bem assim um escravo de Nação de nome João Mico de idade de oitenta anos pouco mais ou
menos, ao qual para fazer serviços a Deus concedo sua liberdade e alforria por preço e quantia de cincoenta mil reis que recebi de Dona Anna Marta Duarte do Valle, por isso pode o dito escravo de hoje para sempre gosar de sua liberdade como se de ventre livre nacesse. E por ser verdade passo o presente em que assino. Apiahy, vinte e seis de abril de mil oitocentos e quarenta e oito. (a) Rafael Descio”.

Quando a dona Anna Marta Duarte do Valle, a mesma que custeou a liberdade do octogenário escravo “João Mico” faleceu, em seu inventário processado no ano de 1.861, foram arrolados e avaliados os seguintes escravos:

Sebastiana, mulata, 26 anos, casada, ...................................Rs.l:000$000
Virginia, mulata, 8 anos ............................................................... 800$000
Edovirgem, mulata, 4 anos ..........................................................400$000
Candida, mulata, 2 anos ..............................................................200$000
Benedita, mulata, 2 anos (doentia) ..............................................130$000
José, mulato, 3 anos .................................................................... 300$000
Adriano, fulo, 50 anos .................................................................800$000
Delfina, fula, 50 anos ..................................................................400$000
Antonia, fula, 30 anos (asmática) ............................................... 600$000
Eugenio, criolo, 12 anos ........................................................... 1:000$000
Ana, fula, 7 anos .........................................................................600$000
Custodia, fula, 3 anos ..................................................................300$000
Rosa, mulata, solteira, 30 anos.................................................... 900$000
Manuel, fulo, 7 anos.................................................................... 600$000
Germano, fulo, 5 anos .................................................................450$000
Pedro, fulo, 4 anos ......................................................................400$000
Ana, fula, 2 anos, doentia............................................................ 150$000
Rita, fula, 2 anos .........................................................................150$000
Benedita, fula, solteira, 25 anos ............................................... 1:000$000
Frutuoso, fulo, 7 anos ..................................................................600$000
Procopia, mulata, 2 anos .............................................................200$000
Maria, mulata, solteira, 25 anos ............................................... 1:000$000
Francisco, mulato, 5 anos............................................................ 500$000
Brandina, mulata, 2 anos .............................................................150$000
Basilia, criola, solteira, 18 anos ................................................ 1:000$000
Joaquim, fulo, 1 ano .................................................................... 100$000
Petronilha, asmática......................................................................50$000
Joana, fula, solteira, 26 anos ....................................................... 900$000
Nicolau, fulo, 8 anos.................................................................... 700$000
Catarina, mulata, solteira, 20 a.,doentia ......................................800$000
Luciana, mulata, casada, 22 anos, doentia ..................................900$000
Romana, fula, solteira, 50 anos, doentia ......................................400$000
Bernardo, criolo, viuvo, 35 anos,doentio......................................800$000
Roque, mulato, solteiro, 30 anos............................................... 1:100$000
Julião, preto, 24 anos................................................................ 1:100$000
Marcos, preto, 17 anos ............................................................ 1:200$000
Gordiano, mulato, 18 anos........................................................ 1:200$000
Antonio, mulato, 15 anos..........................................................1:200$000
Felizardo, fula, 25 anos ............................................................ 1:100$000
Basilio, fula, 25 anos, ............................................................... 1:100$000
Gregoria, mulata, 14 anos, doentia ..............................................800$000
Amaro, preto, 40 anos, com ferida no nariz sintoma de morféa .100$000
Francisca, fula, solteira, 35 anos .................................................800$000
Antonia, mulata, solteira, 26 anos ............................................ 1:000$000
Florentina, mulata, 6 anos ........................................................... 400$000
Inocencia, mulata, 4 anos............................................................ 350$000
Gregoria, 3 anos, cega de nascença .............................................50$000

Observações: “Fulo” vem a ser o preto cuja cor natural pende para o amarelo. “Mulato” é o filho de pai branco com mãe preta ou vice versa. No mesmo inventário acima referido o imóvel “Morro Grande”, situado bem próximo de Ribeira, com casas de morada e engenho, com a área estimada em cento e vinte alqueires, foi avaliado por Rs.1:000$000!

ESCRITURA DE DÍVIDA E OBRIGAÇÃO DE SERVIÇO QUE
PASSA MAXIMINIANO DE PONTES

“Saibam quantos este público instrumento de dívida virem que sendo no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quarenta e nove aos vinte e treis dias do mês de de Julho do dito ano nesta Vila de Apiahy no cartório de mim tabelião abaixo assinado e sendo ai compareceu presente Maximiano de Pontes e por ele me foi dito que era devedor de José Ricardo dos Santos da quantia de cento e sessenta e um mil e duzentos reis, resto de maior quantia que o mesmo pagou pela alforria dele constituinte, e se obrigava pagar a referida quantia em serviços a trinta mil reis por ano sujeitando-se ele constituinte a todas as condenações e penas a Lei, com a condição de que ele constituinte ha
de aumentar a dívida na mão de José Ricardo dos Santos para manutenção de sua casa e nada mais em parte alguma. E de como disse o outorgante me pediu lhe lavrasse esta escritura neste mesmo livro de notas a qual sendo-lhe lida a ceitou e assinou a seu rogo Francisco de Paula Ribeiro com as testemunhas o Reverendo Vigário José de Pinna Vasconcelos e Joaquim Fidencio de Carvalho. Eu, Estevão de Pinna Vasconcelos tabelião interino que escrevi. (aa) Francisco de Paula Ribeiro José de Pinna Vasconcelos-Joaquim Fidencio de Carvalho”.

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Os escravos cativos e forros ou libertos procurando amenizar sua vida amargurada, depositavam todas suas esperanças na misericórdia divina, e por isso, pelo menos aqui em Apiaí, congregavam-se com muita fé em torno da Igreja, e distribuíam suas devoções em torno de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário Mãe dos Pretos, chegando a levantar modestas capelas em suas honras. A Capela de São Benedito foi construída na Vila Velha, hoje Cordeirópolis, e aquela dedicada a Nossa Senhora do Rosário Mãe dos Pretos dentro do “rocio” ou perímetro urbano da Vila de Apiahy, na esquina das ruas que outrora se denominavam Coronel Barbosa e da Piedade, e que hoje são, respectivamente, as ruas 15 de Novembro e Tenente Martins. Essas duas capelas já não existem.

Por ofício de 15 de setembro de 1.839, o Vigário Encomendado de Apiahy, José de Pina Vasconcelos, dirigia ao governador da província um longo requerimento em que relatava “sobre o estado deplorável da Matriz”, circunstância que o obrigava a oficiar na Capela de Nossa Senhora do Rosário Mãe dos Pretos, pelo que havia necessidade premente de se reformar a Matriz ou de se levantar outra. Os
vereadores da Câmara, aliás, já haviam cogitado da solução do problema por intermédio do ofício de 19 de agosto de 1.831, no mesmo sentido proposto pelo Vigário.

As festividades em honra de São Benedito realizavam-se no dia 26 de dezembro, com missa solene, procissão e leilão em benefício da respectiva irmandade. As pessoas negras compunham a maioria dos presentes a todos aqueles eventos. As homenagens em favor de Nossa Senhora do Rosário Mãe dos Pretos eram prestadas com destaque no dia 8 de agosto, que coincidia com o da Natividade de Nossa Senhora. Nas procissões, nos dois casos, eram negros os que carregavam os andores, os estandartes, e negros eram os festeiros e os “anjinhos”.

Não se tem notícia sobre a possível existência de algum “Quilombo” em Apiaí ou imediações. “Quilombo” era um reduto de escravos fugitivos e rebelados, sendo que no Brasil o principal foi o de “Palmares” chefiado pelo legendário Zumbí, que chegou a reunir, segundo crônicas da época, cerca de vinte mil escravos foragidos dos engenhos e fazendas do nordeste. É certo, entretanto, que na região
de Apiaí existem bairros em que a predominância de elementos da raça negra é absoluta, como “Cangume” em Itaóca e outro aglomerado com o mesmo nome, á poucos quilômetros da cidade. Noutros tempos existia no bairro Palmital uma cadeia, denominada “Calabouço”, onde se recolhiam e se apenavam escravos foragidos ou rebeldes.

Os léxicos dizem o que significa a palavra “calabouço”: prisão subterrânea, lugar sombrio, masmorra. Pode-se ter idéia do que aconteceu naquele cárcere!

Em Apiaí, como dissemos, não existiu um negro escravo revolucionário como Zumbí. Mas existiu um líder negro pacifista, que procurava consolar seus irmãos com o misticismo de rezas e curas por intermédio de “passes”. Chamavase “Pai Graví”, que tinha sua casa nas imediações do bairro Alto da Tenda, e seu nome ficou gravado no sítio em que morava e no córrego alí existente. Costuma-se
chamar de “tenda” as casas dos curandeiros. É possível que o nome “Alto da Tenda” esteja ligado ao Pai Graví. Por “tenda” também se entendia a oficina primitiva do ferreiro, profissional dos mais úteis dos tempos de outrora.

FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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