A DIVERSÃO PÚBLICA DE ANTIGAMENTE

 A respeito da diversão coletiva nos primeiros tempos de Apiaí, quando ainda era conhecida como Santo Antonio das Minas de Apiahy, existe a tradição oral que corrobora alguns escritos, trazendo notícias esparsas.

Como a energia elétrica ainda não existisse, então tudo era estribado na criatividade. Sabe-se, por exemplo, que os carnavais eram sempre comemorados e que os bailes à luz dos candieiros representavam o entretenimento mais procurado. O engenheiro Ernesto Guilherme Young, que percorreu Apiahy no início deste século, citado por Edmundo Krug em seu opúsculo “A Ribeira de Iguape”, explica:

“Já no meu trabalho publicado no ano de 1908 pelo Exmo. Snr. Dr. Carlos Botelho, dd. Secretário da Agricultura, baseado em afirmações de velhos moradores de Apiahy, dizia que era tanto o ouro que circulava na zona, que se tornava enfadonho aos empregados do comércio pesarem, constantemente, o ouro que lhes ofereciam em pagamento, e que nos bailes os moços atiravam o pó desse metal nos cabelos de suas namoradas!

Lenda ou realidade? Ninguém poderá responder; mas isso eu também ouvi, contado pelos mais antigos moradores de Apiaí. Pelo menos uma coisa é certa: o ouro em pó durante muito tempo, até fins do século XVIII, foi sem dúvida a “moeda circulante” nesta região como se pode constatar dos livros da Câmara Municipal daquela época. E como não havia confete nem serpentina é viável acreditar que o ouro em pó os substituísse, com muita parcimônia evidentemente. 

Entretanto, as festividades religiosas eram o grande momento para o povo manifestar ou fazer extravasar seus sentimentos de euforia. Pelo menos é o que se depreende da leitura do artigo 60 da Lei nº 41, de 6 de agosto de 1883 (Código de Posturas da Vila de Apiahy): “É proibido em casas de negócio ou qualquer outra dentro desta vila, perturbar o sossego público, com vozerias e algazarras; os contraventores pagarão a multa de 5$000 cada um , e o dono da casa ou negócio será multado no duplo. Se, sendo advertidos pelo fiscal ou à ordem de qualquer autoridade, ainda continuarem a orgia, sofrerão 24 horas de cadeia. Em igual pena incorre o que der tiros com armas de fogo dentro desta vila, “a não ser nas noites de S. João, Santo Antonio e S. Pedro, ou nos dias de festa nacional, ou por motivo de regozijo público”.

Esse tal de “regozijo público”, ocorria, por exemplo, quando nascia um filho ou filho, neto ou neta do Rei de Portugal, do qual o Brasil foi colônia até 7 de setembro de 1822. Tratava-se de festa obrigatória estabelecida pela metrópole e referendada pelo administrador da colônia. Num desses eventos a Câmara despendeu razoável verba com foguetório, pólvora para ronqueiras, missa solene e sermão extraordinário, conforme ata respectiva. Conseqüentemente é de se admitir que as garruchas e bacamartes esquentavam seus canos nos dias e horas certos sem maiores incômodos para a comunidade, e sem gravames para os festejadores!

Havia um costume que perdurou por muito tempo, com relação às festas que hoje denominamos “juninas”. No dia consagrado a Santo Antonio -13 de junho, todos os que chamavam Antonio faziam fogueira à frente de sua morada onde assavam pinhão e batata que, acompanhados do tradicional “quentão”, eram consumidos pelos presentes que bailavam em volta da fogueira ao som de violas, sanfonas e cantorias. O mesmo acontecia nas noites seguintes de São João e São Pedro. Vale dizer que naqueles tempos, a população da cidade chegava quando muito a mil almas.

A comunidade organizou a primeira sociedade de baile, no ano de 1873, por iniciativa de famílias de destaque, mas que nunca possuiu sede própria, cumprindo seus propósitos em salões de casas particulares. Resquícios dessa sociedade se projetaram até a década de trinta deste século, quando as famílias organizavam as chamadas “brincadeiras dançantes” e os saraus em dias geralmente coincidentes com os de aniversário de seus membros, animados pela música ao vivo emergida do piano, violino, violão, cavaquinho, bandolim, saxofone e de tantos outros instrumentos. Aquela sociedade organizada em 1873 foi sem dúvida a precursora do “Apiaí Futebol Clube” - AFC, fundado em 1925, que, a par do futebol, promovia também reuniões dançantes em locais alugados, porque por muito tempo não conseguiu ter uma sede social. O primeiro esquadrão do “Apiaí Futebol Clube”, disputou partida memorável com o time de Iporanga, lá em Iporanga. Em 1930 uma caravana saiu de Apiaí a cavalo, levando à frente desfraldado o pavilhão com listras pretas e brancas do clube. Praticamente um dia de viagem. Recepção em Iporanga com foguetório e baile. No dia seguinte o jogo que terminou num empate em um a um. Foi essa a primeira vez que o “Apiaí Futebol Clube” disputou fora da cidade. No mesmo ano, foi até Ribeira, já transportado num calhambeque, aceitando um desafio para disputar uma partida com o time do Batalhão de Engenharia do Exército Nacional que trabalhava na abertura da rodovia RibeiraCuritiba, quando foi vencedor por seis a zero. Essas informações foram prestadas por Aristeu Dias Baptista, que integrava o esquadrão de Apiaí assim composto: Alemão - Nego e Aristides Pontes - Antonio Carneiro, Joaquim Miguel e Diogo Chagas - Aristeu, Negrinho, Elesbão, Zézico e Herminio Teixeira. 

Tentativas para instalar um cinema em Apiahy foram feitas a partir de quando a cidade foi dotada de energia elétrica. Em 1922, João Arthur Law, tabelião, fez projetar num velho barracão, onde caixas vazias faziam as vezes de cadeira, o primeiro filme (mudo) em Apiaí; repetiu a façanha por mais algumas vezes e desistiu de prosseguir. Depois, nos primeiros anos da década de trinta, Liberato Dória, num barracão que existia ao lado onde hoje está a Escola Dr. Amadeu Mendes, montou seu cinema, ainda mudo, que funcionou durante uns dois anos consecutivos. As sessões aconteciam em dias variados, e a população tomava conhecimento do evento pelo estridente aviso produzido por uma campainha que se fazia ouvir nos quatro cantos da pequena cidade; para suprir a ausência de som e animar a projeção do filme os músicos da Lira de Apiaí acionavam seus instrumentos produzindo gostosas melodias da época. Algum tempo depois de encerradas as atividades de Liberato Dória, por volta de 1938, Joaquim Badini realizou outra tentativa no mesmo esquema de João Arthur e de Liberato, num barracão que existia na esquina da rua 15 de Novembro com a 7 de Setembro. O cinema ainda não falava, e assim seu Badini ia interpretando o enredo para o reduzido público e quando a cena não comportava aquele recurso, o professor João Pedro do Nascimento, ao piano, animava o ambiente. Essa empreitada também não foi levada à frente. Somente em 1942 foi que se inaugurou o primeiro cinema falado, por iniciativa de Maximino Cassesse (irmão do vigário, Padre Paschoal Cassesse ). O cinema “Apiaí”funcionava num prédio da Rua 15 de Novembro; as cadeiras eram rústicas, com assentos e encostos de tabôa, daquela que se fazem esteiras, e o salão, a cada quinze minutos era iluminado para troca do rolo do filme; era freqüente este arrebentar, quando a projeção era sustada e o salão se iluminava pelo tempo necessário ao reparo respectivo; nessas eventualidades que não eram raras, casais de namorados algumas vezes eram pilhados num doce colóquio amoroso; um alto falante, com dolentes músicas da época, funcionava antes e depois do início da sessão. Maximino “tocou” o cinema até que vendeu o estabelecimento a José de Campos (Zé Pintor), associado a Orlando Ferreira de Moraes (Nenê Macuco), os quais nominaram-no “Cine Vitória”. Entrementes, José Manoel Mancebo Hernandez (“Pepe”), numa iniciativa arrojada, levantava na rua 21 de abril um prédio, onde faria funcionar o “Cine Bandeirantes”. Mas dois cinemas para Apiaí era muita coisa, e o querido “Pepe” acabou adquirindo o acervo do “Cine Vitória”, fundindo-o ao “Cine Bandeirantes”. Foi nessa oportunidade, aproximadamente em 1946, que o cinema em Apiaí tomou um rumo personalizado, funcional e por assim dizer moderno, de projeção da melhor qualidade, e que funcionou por muito tempo, até que, com a concorrência da televisão, cessou de funcionar, prestando-se o ambiente tão somente a eventos culturais e artísticos. Quando o “Cine Bandeirantes” foi constrangido a fechar suas portas para as exibições cinematográficas, sua administração já estava a cargo dos herdeiros do senhor Pepe, e o prédio, de custosa edificação ali está, na Rua 21 de Abril.

A televisão, que foi a causa principal do perecimento do cinema em Apiaí, foi trazida para cá, no ano de 1948, pelo cidadão Silvio Klinguelfuss; só pegava chuvisco, mas com a evolução de sua tecnologia, hoje e de há muito, trás para cá imagens perfeitas.

O basquete foi trazido para Apiaí, no ano de 1937, pelo professor Oswaldo de Mello Sylos, como diretor do “Grupo Escolar Gonçalves Dias”, que treinou seus alunos num campo de grama localizado no “Alto da Cadeia”, no local onde hoje está o muro que circunda o terreno do prédio mais novo daquele estabelecimento de ensino.

O castigo imposto pela televisão ao cinema, corresponde ao mesmo banimento que o cinema havia imposto ao circo que apresentou seus últimos espetáculos aqui em Apiaí em princípios da década de quarenta, período em que o cinema falado arregimentou para si a platéia que pertencia ao circo dos alegres palhaços, dos adestrados acrobatas, dos habilidosos mágicos, e dono de tantas outras variedades. A chegada do circo era anunciada nas ruas pelo palhaço que se fazia acompanhar do homem de perna de pau, ambos arrastando um grupo de moleques que por essa valiosa e agradável participação tinham garantida a entrada grátis para o primeiro espetáculo. A exclamação do palhaço encontrava eco:

“Hoje tem goiabada ! -tem sim sinhô...

Hoje tem marmelada! -tem sim sinhô...

Olha a nêga na janela! -com cara de panela...

Olha a nêga no portão! -com cara de tição...

E o palhaço o que é? -é ladrão de muié...

Oi baixa o sol, suspende a lua...

Olha o palhaço que está na rua!”




































FOTOS GRUPO FACEBOOK:


FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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 Palavras chave: 

HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA