Talvez poucos saibam que a Cachoeira que o Ribeirão Ponte de Tábuas, engrossado com as águas do Córrego Água Limpa, apresenta ao despencar sobre o Rio Palmital, com seus cento e noventa metros de altura, bem próximo ao Bairro Palmital, a seis quilômetros da cidade de Apiaí, denomina-se “Cachoeira do Calabouço”, e é possível que alguém ignore o porque desse nome “Calabouço”.
É que bem próximo dali, construída em fins do século XVIII, quando Apiaí ainda se chamava “Santo Antonio das Minas de Apiahy”, existiu e foi mantida em plena atividade até a abolição da escravatura, uma prisão tétrica, uma execrável masmorra, reservada ao recolhimento de escravos negros considerados infratores pela coletividade branca ou pelo seu senhor. Os criminosos brancos e os negros alforriados ou libertos, quando infratores ou condenados eram mantidos encarcerados no prédio da cadeia comum, localizada na cidade. O “Calabouço”, conta-nos a tradição oral, era uma tenebrosa construção de taipa de terra socada, com exígua ventilação, úmida, escura, na sua maior parte subterrânea, limbenta e asquerosa. Assim define-o José Alípio Duarte em sua excelente obra “ Da Palmatória ao Patíbulo” (edição Conquista, pág. 103): “...O senhor que não quisesse castigar pessoalmente escravo seu, por motivo de repugância ou fastio, bastava recolhê-lo, com autorização do chefe de polícia, à prisão denominada “Calabouço”.
Ali, em troca de módico pagamento, seviciava-se o escravo, revestindo o castigo de cunho oficial, aplicando-se à vítima tantos azorragues quantos os estipulados pelo senhor daquele na guia de recolhimento do infeliz. As surras, em regra, variavam entre 50 e 200 açoites, sendo mais comum o termo médio, recebendo o carrasco uma paga pela aplicação de cada cem açoites, ao que se denominava direito de pataca. O “Calabouço” também servia para trancafiar escravos, pelos mais diversos motivos, até mesmo por falta de espaço onde os instalar em casa de seus senhores”.
Geralmente faziam parte do acervo de segurança do “Calabouço”, as correntes de ferro, a gargalheira, a golilha, o garrote, o grilhão, o anginho, as algemas, as peias, os machos, a placa de ferro e o célebre vira-mundo; serviam como instrumento de tortura, de imobilização do escravo ou para realizar-se o seu transporte com segurança.
A função do “Capitão do Mato” estava estreitamente ligada ao “Calabouço”. Competia-lhe achar o escravo fugido, saindo para essa empreitada fortemente armado e acompanhado de cães farejadores bem treinados. O foragido, quando capturado com vida era trazido acorrentado ao “Calabouço”, onde invariavelmente sofria sério castigo. E justamente para que ninguém pudesse escutar seus áis e clamores, é que as sevícias eram aplicadas na parte subterrânea do cárcere, permanecendo caído na cela o miserável até conseguir levantar-se sob banhos de salmoura. O primeiro Capitão do Mato de que se tem notícia, nomeado para Apiaí, solenemente empossado pelo Juiz Presidente da Câmara Municipal de Santo Antonio das Minas de Apiahy, Alferes Gonçalo Duarte de Andrade, chamavase Leonardo Rodrigues Cunha, conforme termo lavrado a 10 de maio de 1781, no livro competente da Câmara. Essa nomeação e posse, foi resultado de uma ordem do Governador da Província de São Paulo, enviada à Câmara por ofício de 1 de fevereiro de 1781 : ...“providenciar contra negros que se vão pintando na Villa e seu termo por conta do trabalho no Morro em que se tira ouro, fazendo com que estes fujam deste e se refugiem pelos matos...nomeando-se Capitães do Mato para capturá-los...”
Já bem antes, por ofício de 12 de julho de 1776, o mesmo Governador mandara ordens severas a Câmara de Apiaí para prender a José de Oliveira Pardo “fortificado nas campinas, estrada de Apiahy, onde acoita negros...”. Esse referido José de Oliveira Pardo que ocultava negros escravos fugidos e contra o qual havia ordem de prisão foi um dos mais destacados abolicionistas de Santo Antonio das Minas de Apiahy, sem dúvida alguma. Homem que merece ser lembrado pelos pósteros, embora não se tenha conseguido qualquer pormenor sobre sua identidade, ou maiores informes sobre suas elogiáveis façanhas.
Naquele ano de 1776 residiam nas minas de Apiahy duzentos e nove brancos
e forros, e duzentos e noventa e quatro escravos, entre homens, mulheres e crianças, conforme consta do censo detalhado subscrito pelo Capitão Mor Regente Francisco Xavier da Rocha. Não há notícia segura de que Apiahy tivesse tido o seu “quilombo”, local onde se reuniam os escravos fugidos. Entretanto esse nome ficou gravado num imóvel situado próximo ao bairro Pinheiros. A nossa memória diz que um dos escravos foragidos tornou-se respeitável na sua comunidade pelas suas excepcionais qualidades de curandeiro e de consolador dos aflitos que dele se acercavam. Tão grande teria sido sua força extrasensorial, que nenhum Capitão Mato ousou prendêlo, e nenhum Senhor se atreveu eliminá-lo. Era chamado de “Pai Graví”, e de tantos escravos que aqui viveram, somente o seu venerável nome passou à posteridade, gravado num imóvel e num curso d'água que se situam junto da cidade, anexos ao Limoeiro e a montante do Alto da Tenda.
Alguns de nossos conterrâneos negros, com os quais tivemos a oportunidade de conviver, descendentes de escravos, como Nha Candinha, Domingos Lucas, Nha Dominga Galo e tantos outros, num misticismo perfeitamente compreensível, afirmavam que nas noites de sexta feira da quaresma “viam Pai Graví e com ele dialogavam” no sítio em que ele havia morado e onde ele havia morrido no século passado, como autêntico mártir de sua raça. O Pai Graví de Apiaí parece-nos que foi o Zumbí dos Palmares.
Os alicerces do que fora o “Calabouço” de Apiaí, com sua parte subterrânea, ou enxovia, soterrada pela erosão, desapareceram definitivamente no final da década de trinta, quando se levantaram as instalações da antiga Usina Experimental de Chumbo e Prata de Apiaí, no bairro Palmital. Foi bom que se tivessem apagado recordações tão negativas que diziam respeito à solidariedade humana menosprezada e esquecida no curso dos nossos períodos coloniais e imperiais. Mas na história escrita de Apiaí, entretanto, o vocábulo “Calabouço” aparece apenas em um ato da Câmara Municipal, lavrado a 12 de março de 1783, através do qual o Juiz Presidente, Alferes José Vieira da Silva, entrega a José de Barros, o ramo simbólico da arrematação da roçada e limpeza do caminho do “Calabouço” até o córrego de José Barbosa que se interpreta hoje como sendo o córrego “Canal do Ouro” a respeito do qual já se discorreu. Preço da arrematação, ou seja, da concorrência ganha por José de Barros: quarenta e nove oitavas de ouro, pagas pela Câmara para a execução do serviço.
FONTE TEXTO: LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
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