POEMAS DE APIAÍ


“17 DE JULHO DE 1975”
(João Cristino dos Santos - Janguito)
Era início de tarde, céu cinzento,
densa neblina, nevoeiro, ventania
que soprava terrivelmente fria
e a natureza se transforma num momento!

No cinza-escuro do sombrio firmamento
um som estranho como chuva, se ouvia;
era a neve em leves flocos que caía
bailando impulsionada pelo vento.

O Morro do Ouro pouco a pouco “envelhecendo”!
Da cidade, das árvores, tudo em breve
o colorido comum foi se perdendo!...

Espetáculo como esse eu nunca vi!
O fantástico fenômeno da neve
vestiu de branco o nosso Apiaí.


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“FONTE DA PEDRA AMARELA”
(Rubens Calazans Luz)
A região de Apiaí, de toda montanhosa,
de rico subsolo em formação rochosa,
via de regra trás nas fraldas de seus montes,
a jorrar, abençoadas, milenares fontes.

Dentre elas, a mais pura e portentosa,
no dizer da tradição -mais venturosa-,
é a “Pedra Amarela”, que lavou desmontes
do Morro, e do minerador suadas frontes.

Há incontáveis anos sob a mata escorre,
num borbulhante enxurro que não morre,
água a emoldurar Apiaí cheio de memória.

Mas para nós o líquido que da fonte corre
do Morro é bálsamo suave que o socorre,
na evocação do que foi pra nossa história.



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“APIAÍ” 
(Irmão Francisco, pseudônimo de Augusto Batista do Canto)
Minha terra natal ! ...Apiaí ! ...
Um trono assim tão alto, eu nunca vi,
Com nuvens circundando o respaldar...
É o MORRO D’OURO alçando-se nos céus
Que vai agradecer ao Senhor Deus,
As graças que lhe deu, sem regatear.

Cai o raio na crista descalvada,
Numa orquestra de ventos, conjugada
Ao bramir selvagem dos trovões...
A floresta medrosa se estremece,
Enquanto a tarde morre e a noite desce,
Envolvendo em tristeza os corações.

APIAÍ ! Com ouro das bateias,
Nos salões, à luz frouxa das candeias,
Ardendo nos candieiros fumegantes,
Os cabelos das damas se adornavam,
E as pepitas doiradas cintilavam,
Ao som dos sapateados retumbantes.

Relembrando os frondosos pinheirais,
Colunas de ilusórias catedrais,
Outrora enchendo os campos de beleza !
- Olhemos o Porvir -sem nervosismos
- E, replantemos tudo o que destruímos,
Num desagravo à SANTA NATUREZA !

Sob a densa cortina da garoa,
Cuja fama por toda parte ecoa,
Apiaí achou o rumo certo,
Impávido, com passos de gigante,
Avança pela estrada, fulgurante,
De um destino grandioso já bem perto !

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“RELÍQUIA”
(Monsenhor Oscar Santos Júnior)
Um metro de largura - o muro grosso
é taipa de museu. A lide escrava
se mostra bem no intrépido colosso -
terra socada e forte como a lava!...

Ruínas da matriz - parece moço...
Medrou a madre-silva que lhe salva
a juventude em fibras, carne e osso!
Verdejante troféu lhe enfeita a calva.

Risonho pé macio de dália crespa,
irmão da benquerença, à trepadeira
se mistura no enlevo da saudade.

Não temas, passarinho; a pobre vespa
não vai morder a flor que tanto cheira.
Borboletas, vibrai na intimidade!...

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“A BIQUINHA”
(Monsenhor Oscar Santos Júnior)
Lascada pelo meio, a peça de bambu
recolhe o jorro d’água a deslizar em bica.
Do coração da terra, em borbotões, estica
a fonte para sempre o eterno braço nu.

Batismo original. Lavadeira é madrinha.
Cantigas de ninar entrando pelo pote.
As mangas da camisa, a blusa com decote,
molhadas de sabão, saúdam a “BIQUINHA”!...

O nome é simpatia. A abundância é mistério.
A sombra do arvoredo, o canto do nambu
recolhem da montanha o dinamismo assu,
que desafia a sede eterna do homem sério.

Passaram gerações. Quem “pra semente” fica?
O progresso é tenaz; destrói a natureza.
A “Biquinha”, porém, redobrou de beleza.
O asfalto lhe apresenta, às vezes gente rica.

O jorro batismal recorta qual chicote,
lembrando o povo hebreu no tempo de Moisés.
- Cristão, que fazes tu? Duvidas? Não? Quem és?
- Mercador a fazer da vida mero trote?

O mano de Esaú, à beira da cisterna,
nos olhos de Raquel encontra segurança.
“Biquinha” foi também a testemunha mansa
das juras de casais de compostura terna.

“Biquinha” tem sabor do poço de Jacó,
quando a Samaritana é fonte de cautério.
A gente quer regar o andante cemitério...
Amor e correção vêm pejadas de dó.


Garôa-nevoeiro em vestes de rendilha
envolve por completo o esbelto Morro d’Ouro
É “Biquinha” que escapa a seu ancoradouro
prá brincar c’o papai!...Galanteios de filha!

Gelada, siberial, no frio mês de junho,
ela incita à corrida os bandos de cabritos.
Caçoam, da sacada, os jovens periquitos.
Berra o moleque, então: - “Cuidado que te unho!”

-“Se bodoque eu tivesse e “ela” fosse granizo,
eu bem que poderia arremedar Daví.
Sairia a caçar macacos e sagüi...”
Os vizinhos dirão...“moleque sem juízo!...”

Sentemo-nos aqui. A Natureza adora
na lágrima o olhar, com saudades da Graça.
A chuva, o rio, o mar, o sereno sem jaça -
toda a água do Universo é condensada agora.

No cálice de vinho a pérola desata.
O Sangue o Senhor assimilou a história
de nossas doações. A Missa canta o “Glória”!
A Bica do Evangelho é terna catarata!...

- Sou FONTE! Vinde a Mim, sedentos de Verdade!
- Eu lavo e purifico em banho de Humildade!
- Sou Vida que penetra além da Eternidade!
- Eu sou o AMOR que corre em toda a Humanidade!...

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“APIAÍ”
(Monsenhor Benedito Vicente dos Santos)
Morro do Ouro. Furnas. Sendas
que lembram a cidade, a sina, o fado;
aqui e ali há escavões e fendas
na solidão do castelo abandonado.

Os pinheirais erigem velhas tendas
bucolizando o burgo a cada lado,
e guarda a Igreja tradições e lendas,
as lutas de ouro de um feliz passado.

Hoje suspensos nas montanhas de ouro,
conservas ciosamente esse tesouro
esperando confiante no porvir.

Mas enquanto o subsolo está dormente
a natureza esplende amavelmente
fazendo sempre o coração sorrir

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“APIAÍ”
(Lázaro Lopes de Arruda-Ministro Presbiteriano)
Terra de sol, de chuva, revestida
de vapor, de serras, de sertão.
Aqui passei de alma comovida
com esta gente de bom coração.

Ali contemplo a serra de ouro, erguida
bem unida nos braços da amplidão,
de um ramalhete natural vestida,
de belas flores enfeitando o chão.

Eu já senti tão grande comoção
nesta formosa plaga estremecida,
engastada por Deus na criação.

Também senti tão jubilosa a vida
da minha terra, do Brasil querida,
a conversar com Deus na solidão.

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“PAREDES DE TAIPA”
 (Antonio dos Santos Lisboa - Totico)
Quando criança ainda alcancei nesta cidade,
onde estão o “Gonçalves Dias” e o Hospital,
paredes de taipa ligadas à antiguidade
do trabalho escravo, duro, tosco e colossal.

-(Parece que os vejo)- seminus, com dificuldade,
a carregar nos ombros o barro ante o feitor brutal,
que não hesitava em castigá-los sem piedade,
vibrando o látego, tirano e desleal.

O molde era em madeira do tamanho desejado,
muitos deles com mais de metro de largura,
e dentro, aos poucos, o barro iam socando.

Corriam anos no afã penoso e fatigado,
muitos morriam por doença ou por tortura...
suor, sangue, lágrimas nas taipas soterrando!...

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“A ESCALADA”
(João Cristino dos Santos-Janguito)
Quem escala o Morro do Ouro imponente,
procurando a higiene física e mental,
não encontra ali tesouros, certamente,
mas se enleva num lazer sensacional.

Lá no cimo a brisa sopra levemente,
compensando o desgaste corporal
da escalada, que é feita lentamente
no caminho sinuoso e desigual.

O panorama que de lá se descortina
é indescritível no belo e na grandeza!
Nos encanta, nos deslumbra, nos fascina!

Nosso ser extasiado, em emoção,
no contato tão feliz com a natureza,
louva a Deus Supremo Autor da criação!

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“A IGREJA VELHA”
(Rubens Calazans Luz)
Não foi o tempo que causou a tua ausência.
-A Igreja é eterna, dizem as Escrituras-.
Nem foram os que absorviam tua essência
a causa banidora de tuas estruturas.

Tuas taipas escutaram pedidos de clemência
do pecador arrependido, pejado de torturas.
Teus bancos, teus altares, com clarividência,
testemunharam o consolo mandado das alturas.

Quando volto o olhar e não te vejo, fico triste.
-És apenas memória que à saudade não resiste que castiga, 
faz pungir e faz sangrar o coração.

Mas tua imagem veneranda em  mim persiste,
e quando me ponho no lugar em que exististe,
ainda escuto prolongados sussurros de oração!

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“APIAÍ DOS MEUS AVÓS”
(João Cristino dos Santos - Janguito)
Só uma rua estreita entre cercas e barrancos
e as casas geminadas - pitoresco desalinho -.
Chegam velhos carroções, gemendo aos solavancos,
saem tropas carregadas a enfrentar longos caminhos.

No trabalho a mistura do escravo negro e o branco,
a exploração do ouro que fundido no cadinho
vira moeda corrente no comércio livre e franco,
lavradores...lenhadores...lavadeiras no riozinho.

Nas procissões religiosas sempre a banda musical
e os oficiais fardados da Guarda Nacional.
Uma lei determinava o cumprimento a rigor

da medida econômica ao humilde acendedor
dos lampiões fumarentos para iluminar a rua:
“permaneçam apagados quando houver clarão de lua”.

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“O ENGENHO VELHO”
(Rubens Calazans Luz)
Outrora aqui existiu, de grande porte,
um belo engenho de “caviuna” dura,
movimentado pelo burro forte,
remoendo sem cessar cana madura.

A bica feita com esmerado corte,
fazia jorrar no cocho, com desenvoltura,
o líquido precioso que tinha sua sorte,
na garapa, no melado e por fim na rapadura.

Vestígio seu pelo tempo foi borrado,
seu acorde cansado quietou sem ser gravado;
nada conseguiu manter-lhe a ancianidade.

O que sobrou de todo o seu passado?
O privilégio de ter o seu valor lembrado
numa respeitável rua de nossa cidade!

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  No jornal regional “A VOZ DO ALTO RIBEIRA”, o professor Oswaldo Mancebo, presidente da ASSOCIAÇÃO CULTURAL, CÍVICA E HISTÓRICA DE APIAÍ, fez publicar a sua crônica XII da série “A Cordilheira Criadora”: Nos arredores de Apiaí, a Natureza é poluída por mil sons, - tatalares, chilreios e trinados - cantos característicos das áreas do PETAR, onde vivem várias espécies brasileiras. Apesar dos perigos da possível extinção, pois continua a depredação pelo homem ignorante, entre os pássaros ainda  sobrevive o sabiá: conhecido por Boqueira, dentirrostro (bico dentado), de canto muito suave, existe em muitas variedades, como por exemplo o sabiá-poca, de ventre branco; o laranjeira, muito celebrado pelo canto; sabiá-una (ou preto), de asas, cauda e cabeça preta, canta estridente no alto das árvores, e o tropeiro ou sabiá da mata virgem, parecido com os pombos.
  Foi um destes pássaros que inspirou o poeta e engenheiro dr. Canuto de Almeida Moura a redigir belo poema em pleno vale do rio Betary, na altura da Boa Vista, onde estava acampado fazendo levantamento topográfico das cataratas para um possível aproveitamento na construção de usina hidrelétrica que forneceria luz a Apiaí, trabalho este encomendado pelo dono da antiga Cia. de Luz e Força, Lázaro Calazans Luz. Num recanto maravilhoso daquelas serras, o sabiá cantava, enternecendo-o, quando uma terrível tempestade fê-lo calar... O soneto transcrito abaixo foi declamado por Janguito na solenidade de diplomação do “Cidadão Apiaiense, dr. Canuto”, quando o próprio homenageado não se conteve e chorou.

O SABIÁ DO BETARY
(reminiscência do Betary (nome de índia), rio e serra de arrebatadora
beleza perdidos em pleno maciço  da cordilheira Paranapiacaba, no Apiaí)
Certo dia um sabiá, sertanejo cantor
no pico da serra docemente gorjeava.
Expandia, tranqüilo, doce canção de amor,
refúgio precoce da dor que o esperava.

Estoura o rumor de tremenda tempestade,
lançando-o em vagalhões sem dó nem piedade.
Ingrato e insensato o cataclístico pavor,
despreza impassível seu cântico de dor

Onde a sacrossanta, a comovente melodia,
gravada no ouvido, ressoando noite e dia?
A alegria do ermo d’um cântico de vida,

mística quedou-se n’um cântico de morte.
Avezinha infeliz, alma desfalecida,
SABIÁ DO BETARY, diga-me tua sorte...

FONTE TEXTO: 

LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ 

OBSERVAÇÃO:

A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!

 

"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.

 

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 Palavras chave: 

HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - APIAÍ VALE DO RIBEIRA