Crônica de autoria de Rubens Calazans Luz, publicada no semanário
“A Voz do Alto Ribeira”, páginas 1 e 1 verso, edição de 11 de agosto de 1990
Para contemplar-te nesta véspera do teu duocentésimo décimo nono aniversário de maioridade civil, não existe outro modo mais abrangente do que mirar-te do ápice do “Morro do Ouro”, que foi a razão maior do teu próprio nascimento, e que se constitui no motivo principal de tua sobrevivência.
Dali, a mil e sessenta metros de altitude, sobre a pedra derrocada apelidada “Pico do Corvo”, nestes dias ensolarados de inverno, de céu azul sem manchas, raros mas tão lindos, nossos olhares alcançam horizontes tão longínquos e se confortam com a disparidade da natureza das terras enrugadas de teu vasto território, a chocarem-se com os verdes campos do Itararé, com as campinas de Ribeirão Branco, com as escarpas esbranquiçadas de Adrianópolis, e com as tortuosas
cordilheiras que te separam de Ribeira, Iporanga.
E tu - “Cidade do Morro, Cidade Dourada”-, estas lá em baixo, serpenteando por vales e promontórios, que de princípio eram do domínio natural e exclusivo de riachos, campinas e pinheirais, ao depois subjugados pelos garimpeiros que paulatinamente foram te transformando, de povoado em arraial, de arraial em freguesia, de freguesia em vila e de vila em cidade iluminada pelos eflúvios dourados que emanam em surdina de teus alicerces.
Arraial do Morro, Santo Antonio das Minas de Apiahy, Apiaí. Existes, porque o Morro do Ouro existe.
Então presenteando-te e homenageando aqueles que viveram e vivem em teu seio, recordemos e gravemos a história do Morro que te fez cidade. Do Morro cujas encostas os primeiros aventureiros riscaram e cavaram durante largos anos, cujas entranhas homens ambiciosos perfuraram, mas cujo coração de ouro não foi e nunca será atingido e continua a bater firme, compassado, espargindo o vigor da memória, sustentáculo de toda a tua intrincada e soberba história.
É sabido e corriqueiro que os garimpos auríferos de Apiaí concentrarams e primitivamente na Vila Velha do Pião ou Capoeiras e quase que concomitantemente na outra Vila Velha, que recentemente passou a chamar-se Cordeirópolis. Não se confundam as duas; a primeira situa-se a nordeste do Morro, em águas que vertem para o Paranapanema, e a outra está ao sul, em águas que descambam para o Ribeira de Iguape. Nos tempos áureos da mineração, dentre elas existia um espaço inexplorado, justamente os terrenos que abrigam o Morro e seus contrafortes. Esse espaço ecológico passou a ser ocupado pelo homem, a 17 de março de 1776, conforme se deduz de ofício expedido pelo Governador da Província de São Paulo, General Martim Lopes Lobo de Saldanha, ao Presidente da Câmara de Apiahy. A reserva aurífera do Morro interessava, e muito, à coroa portuguesa, que permitia qualquer trabalho no local somente mediante especiais concessões e mantinha guardas no Morro para evitar incursões por parte de aventureiros ou estranhos. A esse tempo o local apelidava-se Morro da Descuberta, depois, numa homenagem ao imperador, Morro de Dom Pedro, e por fim foi denominado Morro do Ouro. Este último nome vinculou-se ao respectivo terreno e imediações, tendo sido demarcado judicialmente no ano de 1899, nesta comarca, quando se apurou conter 89,84 alqueires. Essas terras haviam sido vendidas pelos herdeiros do casal de Lourenço Dias Baptista com Anna Marta Duarte do Valle aos irmãos Diogo, Dário e Deodato Rodrigues de Moraes, moradores de São Paulo. Juntamente com o imóvel anexo, denominado Água Limpa, com 137,00 alqueires, veio a ser adquirido por Antonio de Aguiar Melchert que ali iniciou trabalhos mecanizados e racionais de mineração nos princípios deste século. Os herdeiros de Melchert transferiram a propriedade dos dois imóveis, em partes iguais, a Walter Charnley, David Carlos Macnigh e Frank Edward Krug. Por escritura de 19 de novembro de 1941, à qual estiveram presentes herdeiros daqueles proprietários mais a Companhia Mineração Apiaí, realizou-se uma transação e composição, fixando-se então os proprietários do Morro do Ouro e Água Limpa, com as seguintes quotas: espolio de David Carlos Macnight, 23,08%, espólio de Frank Edward Krug, 23,08%, José Augustin Charnley, 33,33%, e Companhia Mineração Apiaí, 20,50%. A contar daquela data, pelo menos do registro imobiliário de Apiaí, nenhuma alteração consta da titularidade daqueles imóveis, valendo acrescentar que há bem pouco tempo faleceu o senhor João Batista de Almeida Prado, que constava ser Presidente e sócio majoritário da Companhia Mineração Apiaí.
Fotos batidas do mesmo ângulo, a contar do morro situado atrás da Farmácia Avenida, local do antigo posto Atlantic:
Quem por derradeiro explorou a jazida aurífera do “Morro do Ouro”, foi um grupo japonês, mediante entendimento com a Companhia Mineração Apiaí. Essas atividades, entretanto, encerraram-se no ano de 1943 por intervenção do governo federal, que houve por bem confiscar ou fazer cessar atividades semelhantes por parte de súbditos de países contra os quais o Brasil, como um dos aliados, havia declarado guerra no último conflito mundial, dentre os quais estava o Japão.
Mas o Morro do Ouro, antes de mais nada, deve ser considerado como patrimônio histórico de Apiaí, e preservado como tal, íntegro, livre de invasões e depredações. E isso, infelizmente vem acontecendo impunemente, na completa ausência de seus proprietários.
É de bom alvitre transportar para aqui, uma lenda que os mais velhos devem conhecer de sobejo :
“Naquela lagoa existente no Morro, que nunca secou, dorme uma serpente gigante, cuja cauda está enrodilhada sob a cidade. Se um dia o fantástico réptil despertar, do povoado não restará pedra sobre pedra!...”
Preservemos o Morro de Ouro, deixemo-lo em paz, como moldura viva de Apiaí, CIDADE DO MORRO, CIDADE DOURADA!
FONTE TEXTO:
LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
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Palavras chave:
HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA