Na década de trinta o plástico ainda não era conhecido. Nem em Apiaí, nem noutro local. A indústria nacional de brinquedos, produzia uma insignificante variedade deles, como bonecas de massa e pano, carrinhos de madeira, que assim mesmo não chegavam a Apiaí. Para seu lazer os guris improvisavam os brinquedos com os recursos que estivessem ao seu alcance. Os carrinhos eram feitos de lata de sardinha, montada sobre carretéis de linha já usados. Um barbante puxava o improvisado pelas estradas da imaginação e dos sonhos.
Outra forma de divertimento era o carro “cocão”, de quatro rodas. Descia livre pelas ladeiras e pelos gramados, dirigido por um garoto que conforme a capacidade do “veículo”, levava duas e até quatro “caronas”. No terreno plano ou na subida era empurrado.
Do carrinho de cocão, somente as rodas eram encomendadas aos carpinteiros; o resto era montado em casa, de forma artesanal; os dois eixos eram feitos de guatambú, madeira cortada no mato e muito resistente, e o “cocão” era uma espécie de mancal engraxado para suportar o atrito dos eixos. Em suma, era uma réplica dos carrinhos de rolamento que alguns ainda usam por ai.
A utilização de cada brinquedo, variava de acordo com a moda. Quando, por exemplo, passava o tempo do carro de “cocão” pela monotonia ou pelo tédio, outra brincadeira “era inventada” como se costumava dizer. Rodar pneumático era um bom entretimento. O movimento de veículos nas poucas ruas da cidade era bem pequeno, pelo que não havia perigo de atropelamento ou acidentes envolvendo os rodadores de pneu. Essa brincadeira exigia certa habilidade, principalmente quando se rodava pneu de caminhão num terreno em declive, pois o pneu de vez em quando escapava ao controle do guri e ia parar quando encontrasse um obstáculo, qualquer que fosse, não sendo raro cenas hilariantes, tal como aquela que aconteceu quando um pneu desgovernado foi de encontro ao balcão de uma
loja que se situava no Largo do Triângulo, hoje Praça Jonas Dias Baptista. Disputavam-se corridas acirradas rodando pneus. A mais tradicional correspondia a um circuito relativamente longo, como aquele que tinha como ponto de partida o Largo da Matriz seguia pelas ruas Major Carneiro, Largo do Triângulo, rua 15 e Novembro, Liberato Dória, Padre Celso e terminava na meta final que coincidia com o ponto de partida. Essas disputas aconteciam nos domingos e feriados e exigiam muito esforço e persistência por parte dos “pilotos”. As regras eram simples mas lógicas, como categoria baseada no tipo de pneus e idade dos disputantes.
Como a cidade era circundada por íngremes campinas, nestas havia uma disputa especial, quando os guris se punham encurvados dentro do pneu e soltavam-se ladeira abaixo até estacarem no final da planície, lá em baixo.
Passada a “epidemia” de tocar pneu, começava-se a “tocar arco”. Chamava-se de “arco” um círculo de arame grosso, de ferro, de alumínio ou de qualquer outro material, que se impulsionava com uma vareta de um daqueles materiais, encurvada na extremidade que movimentava o círculo. Cada um improvisava o seu “arco” a seu modo e rodava-o nas ruas e calçadas. Costumava-se realizar corridas de “arco” com o mesmo entusiasmo com que se rodava o pneu. Um dos “arcos” mais usados era a cinta de lata que prendia as tabuinhas das barricas utilizadas no comércio como vasilhame de vinho, cachaça e até de cimento que àquele tempo era assim acondicionado como mercadoria importada, já que no Brasil ainda não havia estabelecimento que o produzisse.
Outra modalidade de brinquedo muito a gosto da gurizada eram os jogos de “pinhão” e de “bola de vidro” que agora se denomina “bola de gude”. Tanto um como outro jogo podia ser “a brinca” ou “a ganho”. Na modalidade “a ganho”, o vencedor levava o pinhão ou a bolinha do perdedor. Jogava-se tanto um como o outro nas ruas, nas calçadas e até na escola, no intervalo reservado ao recreio. Do jogo do “pinhão” participavam no mínimo dois apostadores e era praticado no curso dos meses de abril e maio, época em que os pinheiros produziam seus frutos. Os apostadores combinavam entre si sobre o número de pinhões que seriam jogados. No solo era feita uma cova ou buraco com cinco centímetros de boca, afunilada. Os apostadores postavam-se numa risca distante uns três metros da cova e sorteavam no par ou ímpar quem jogaria por primeiro. Acertado esse detalhe os apostadores, intercalando-se, atiravam seus pinhões na direção da cova. O dono do pinhão que se posicionava mais próximo da cova, impelia-o com um golpe do dedo indicador. Caso o encovasse tirava do jogo, para si, um pinhão do adversário, geralmente aquele mais próximo da cova, como também aquele que havia encovado. Se porventura não acertasse a cova, a jogada passava para o adversário. E assim prosseguiam no jogo até que um dos apostadores conseguisse ganhar todos os pinhões do adversário.
“Piquira” era o pinhão de pequeno porte; “guaçu” era o bem graúdo. Os que se revelavam bons jogadores, os craques, às vezes enchiam sua bissaca ou embornal com o resultado de suas vitórias. No jogo da “bolinha de vidro” usava-se o mesmo critério, mas ele comportava outras modalidades de jogo, como o “mata-mata” com suas regras mais sofisticadas e o “carreirão”, semelhante ao “boliche” com uma variante parecida com o “boche”. Do mesmo modo jogava-se com “bola de aço”, obtidas dos mecânicos e tiradas dos rolamentos avariados. Costumava-se não misturar no jogo bolas de vidro com bolas de aço, por questões de técnica, pois as últimas exigiam maneabilidade mais apurada, além do que, numa “estecada”, que significa golpe mais violento, geralmente estilhaçava as bolinhas de vidro.
“Esconde-esconde” era uma brincadeira da qual participavam geralmente dez e até mais guris. Sorteava-se um deles que deveria esconder-se numa região delimitada da pequena cidade, como por exemplo, no perímetro fechado pelas ruas 15 de Novembro, 7 de Setembro, Torquato Rios Carneiro e Largo do Triângulo (atual praça Jonas Dias Baptista). Ele escondia-se e passado determinado tempo os demais saiam a sua procura. Encontrado era levado ao ponto de partida e retirado do brinquedo, indo esconder-se outro, escolhido dentre aqueles que não haviam sido os autores ou o autor da “prisão” do procurado. Assim se prosseguia,
sucessivamente, e a brincadeira terminava quando restasse apenas um elemento para esconder-se, ou quando o procurado não fosse encontrado num lapso de tempo combinado. A brincadeira tornava-se mais divertida quando realizada em horas noturnas. Certa feita alguém escondeu-se nas ruínas da cadeia velha e foi ofendido por uma jararaca, o que colocou toda a cidade em polvorosa, fato que não trouxe piores conseqüências pois na única farmácia felizmente havia soro.
FONTE TEXTO:
LIVRO SANTO ANTONIO DAS MINAS DE APIAHY, RUBENS CALAZANS LUZ
OBSERVAÇÃO:
A maioria dessas fotos antigas de Apiaí eu encontrei na internet. Nenhuma dessas fotos pertencem a mim!!! É algo que pertence a todos nós Apiaienses que amam essa terra. Muitas fotos também são do Livro Santo Antônio das Minas de Apiahy, do Sr. Rubens Calazans Luz, devidamente serão postadas com os créditos. Muitas destas fotos antigas também são das pessoas que aqui já viveram, caso algum familiar se sinta ofendido, por favor entre em contato comigo que eu deleto a foto. Desde já agradeço!!!
"Um povo que despreza suas origens, sua história, é um povo que se perde a cada geração que passa". Frase do livro: APIAÍ, DO SERTÃO Á CIVILIZAÇÃO, OSWALDO MANCEBO.
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Palavras chave:
HISTÓRIA DE APIAÍ - COMO COMEÇOU APIAÍ? - FOTOS DE APIAÍ - FOTOS ANTIGAS DE APIAÍ - FOTOS DA CIDADE DE APIAÍ - APIAÍ VALE DO RIBEIRA

